Tristram Shandy

O romance The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman (A Vida e Opiniões de Tristram Shandy) de Laurence Sterne foi publicado em nove volumes, entre 1759 e 1767. É um livro que transfigura as convenções do romance que apenas tinham começado a afirmar-se. As características fisicas do texto interagem com o seu conteúdo, de forma a potenciá-lo. Entre outras surpresas gráficas, tornaram-se famosas quer a folha matizada de várias cores que representa muco nasal, quer a folha negra, que torna presente o luto pela morte de uma das personagens.
Em The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman (A Vida e Opiniões de Tristram Shandy), o objetivo do herói-narrador é contar a história da sua vida. Ao fim de nove volumes de tentativas, no entanto, ele acaba por chegar à estranha conclusão de que contar a história da sua vida demora mais tempo do que vivê-la e reconhece a impossibilidade de tal objetivo pois percebe que a sua narração nunca será capaz de alcançar o presente.
O presente da sua narração transforma-se numa fuga à realidade do presente. O narrador passa mais tempo a explorar todas as potencialidades da forma do romance do que a contar a história, que, aliás, acaba por revelar-se relativamente desprovida de acontecimentos. A exploração da forma deste tipo de narrativa estende-se à materialidade do próprio texto. Para além de surpresas gráficas como a folha negra ou a folha matizada de muco nasal, Laurence Sterne joga com páginas brancas, com rabiscos, com asteriscos, entre outros elementos.
Tudo isto assenta num estilo digressivo, através do qual Sterne procura desafiar as leis do tempo e da morte, e atingir não a realidade do presente mas como que uma realidade interior dos acontecimentos inscrita no seu rumor emocional, isto é, nas emoções que restam deles, e na sua risibilidade.
Ler transforma-se na decifração do significado das coisas, ou seja, na descoberta gradual de que nunca descobriremos o seu significado absoluto, restando-nos a única consolação da suspeita de que o riso poderá representar uma espécie de vitória.
É um livro que transfigura as convenções do romance que apenas tinham começado a afirmar-se com Robinson Crusoe de Daniel Defoe. No entanto, integra-se na linha satírico-filosófica das narrativas de Rabelais e Cervantes. As suas conceções de tempo e da perceção anunciam a consciência fragmentada que caracteriza o romance do séc. XX, nomeadamente de autores como Marcel Proust, Virginia Woolf e James Joyce.

Como referenciar: Tristram Shandy in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-04-09 06:28:49]. Disponível na Internet: