Um Amor Feliz

O único romance escrito por David Mourão-Ferreira recebeu no ano da sua publicação o reconhecimento da crítica, tendo acumulado o Prémio de Narrativa do Pen Clube Português, o Prémio D. Dinis, o Prémio de Ficção Município de Lisboa e o Grande Prémio de Romance da Associação Portuguesa de Escritores. O título do romance relança uma das temáticas mais recorrentes na obra poética de David Mourão-Ferreira, a temática amorosa, na sua dupla relação com a vivência do tempo e com a escrita. O narrador, Fernão, um escultor de 55 anos, evoca a sua relação adúltera com uma jovem de 35 anos, Y, nome-grafismo encontrado por analogia com a postura da amante, nua com os braços estirados para trás. Do nome à descrição física, tudo nela converge, porém, pelo seu carácter inefável, para a assimilar a uma encarnação da beleza, sendo a relação um ponto de partida para o reequacionamento, numa etapa crucial da sua vida, de outras relações frustradas (a Xô, a mãe, a esposa), na busca de um eterno feminino agora subitamente encontrado; e para o repensar da relação com as suas obras, "hobbyjectos", "hollyjectos", numa busca do belo ("Quanto mais os anos passam mais me interessa encontrar, na própria vida, aquela chamada beleza - se possível com B grande - de que pareço fazer troça em quase todos os "objetos" que me saem das mãos" (p. 19), que encontrará na escrita um instrumento privilegiado para a realização de um outro amor feliz: "para mim, escrever é primeiramente fazer amor com as palavras" (p. 271). Decorrendo entre dois Natais, a evolução da intriga, fortemente coerente na trama de indícios que ritmam a ação, funda-se na consciência de que o amor e a mulher são o centro do mundo, o eixo da vida, situando a relação amorosa, ao mesmo tempo, na atemporalidade (Roma, a cidade eterna, é sempre o destino projetado para o amor) e numa rutura com a temporalidade, manifestada pelo espírito ironicamente crítico com que o narrador assiste a encontros mundanos, ou simbolizada pelo atelier, espaço de isolamento e de proteção contra um tempo que se desgasta na repetição: "Só confusamente me apercebia do que entretanto lá no exterior se passava: novos rios lamacentos de velhas palavras; novas bombas que explodiam, novos atentados que se perpetravam; novas manigâncias, novas crises, novas misérias, novas catástrofes, novos recontros ou novas batalhas (...) p. 42)."
Grande parte do discurso narrativo apresenta-se sob a forma de diálogo unilateral endereçado a uma jovem, casada com um pediatra amigo da sua esposa (também pediatra), autora de poemas que o perturbam pelo seu impudor, confidente desta relação, e vivendo ela também uma relação adúltera com David, um crítico literário, ensaísta e professor de literatura, mais velho vinte anos. Esta duplicação de personagens revela na construção e distribuição das personagens um jogo narcísico pelo qual cada personagem encontra noutra, em espelho, a sua própria imagem refratada, do mesmo modo que cada dupla de personagens se desdobra noutro par. Assim, a relação de Fernão com Y duplica a relação de David com a destinatária incógnita - que poderíamos, matematicamente, designar X -, duas relações que se desenvolvem em simultâneo, mas que encontram desfechos diferentes: provavelmente, a companheira de David terá deixado o marido e tentado no Brasil, com o amante, a fuga aos "pífios anos Oitenta"; enquanto Fernão e Y não tiveram a coragem suficiente para assumir a relação, embora a narrativa deixe em aberto o seu futuro, mantendo viva a "ilusão de um amor feliz". No quadrado amoroso desenhado por estes dois pares, estabelecem-se outras duplas como a de Fernão e a destinatária da narração, unidos pela cumplicidade, pela admiração, por um beijo, ambos crianças/adultos agindo sob o olhar tolerante e impotente dos respetivos cônjuges pediatras. Quanto a Fernão e David, a construção da sua caracterização apresenta-os como duplos um do outro, simultaneamente diferentes e iguais: porque o seu itinerário existencial foi paralelo, conheceram as mesmas pessoas, as mesmas mulheres, os mesmos contextos, além de possuírem gostos comuns, como o entusiasmo por Savinio. Depois de um prolongado jogo de cabra-cega, no capítulo XLIV, Fernão e David encontram-se, sendo então desmontado o seu estatuto, exatamente o de narrador e autor do romance que ambos projetam escrever. Alegoria de problemáticas narrativas como a da distinção entre autor e narrador ("O que é o pobre do autor diante dos poderes e dos caprichos do narrador?", p. 268), David, professor universitário, ensaísta, detentor de um cargo na Gulbenkian, e compositor da letra de alguns fados do repertório de Amália, explica a Fernão que projeta um romance em que o escultor figuraria como protagonista e narrador, e onde perversamente o colocaria a falar sobre si (autor), como de uma personagem secundária.
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