Vasconcelos Correia

Médico, professor catedrático e político português, Augusto César de Almeida Vasconcelos Correia nasceu em 1867, em Lisboa, e faleceu em 1951, na mesma cidade. Formou-se em Medicina na Escola Médico - Cirúrgica de Lisboa em 1891. Nesta escola enveredou pela carreira docente, atingindo o grau de catedrático em 1906, regendo a cadeira de Anatomia Descritiva e Topográfica. Foi também diretor clínico em vários hospitais de Lisboa, nomeadamente na especialidade da cirurgia, em que ganha fama não só em Portugal mas também no exterior.
Desde sempre foi um entusiástico republicano, demonstrando a suas convicções políticas no jornal Pátria. Por altura do 5 de outubro de 1910, era presidente da Comissão Municipal do Partido Republicano, o que o tornou um dos mais ativos colaboradores do Governo Provisório. Assim, desempenhou várias tarefas, principalmente no âmbito dos Negócios Estrangeiros, chegando mesmo a ser nomeado, em 23 de março de 1911, Ministro Plenipotenciário em Madrid, abandonando, todavia, o cargo em outubro desse ano, devido a exoneração. Foi, no seguimento desse regresso de Espanha, convidado pelo chefe de governo João Chagas (3/9/1911-12/11/1911) para o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. A sua habilidade diplomática, apoiada na via constitucional por que enveredara o País, facilitou então o reconhecimento internacional (principalmente das grandes potências europeias, como a Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Espanha ou a Áustria - Hungria) da jovem república portuguesa, que assim passava a ter novamente visibilidade no concerto das nações.
Todavia, a situação política no País era ainda demasiado instável e frágil. De facto, as tentativas de contragolpe dos monárquicos fustigavam amiúde a jovem República, acometida ainda por hesitações políticas e falhas administrativas no regime. Por isso, João Chagas foi forçado a demitir-se em 12 de novembro de 1911, em parte também devido às divisões que dilaceravam já o republicanismo português. Vasconcelos Correia foi então incumbido de formar governo, naquele agitado mês de novembro de 1911, conseguindo obter apoios de todas as sensibilidades republicanas representadas no parlamento, o que era por si só uma surpresa naqueles tempos conturbados da República. Vasconcelos Correia assumiu também a sua conhecida pasta dos Negócios Estrangeiros. Para a sensível pasta da Justiça foi chamado António Macieira, um ministério que foi negativamente toldado pela questão religiosa que dominava a vida no País. O governo de Vasconcelos Correia enveredou então pelo anticlericalismo, o que pôs ao rubro a política nacional, acicatada pela polémica Lei de Separação do Estado e da Igreja de 1911. Esta culminou com a expulsão, em 24 de novembro, do bispo da Guarda poucos dias depois da tomada de posse do governo de Vasconcelos Correia (dia 16 de novembro). Outros membros destacados da hierarquia eclesiástica portuguesa tiveram o mesmo destino do astítite egitaniense, sendo de destacar a punição sobre o cardeal Belo, Patriarca de Lisboa. Logo os meios católicos portugueses disferiram fortes críticas sobre o governo de Vasconcelos Correia, criando uma crise de unidade no gabinete ministerial, adensada ainda mais por boatos agitadores. Surgiram greves rurais no Alentejo e focos de tensão noutros pontos do País, com agitação social e laboral. Os anarquistas e reacionários eram então acusados de instigarem este clima antigovernamental. O governo encetou, neste contexto de turbulência, inúmeras prisões e formas de repressão violenta, direcionados muitas vezes para elementos afetos à monarquia. Ao fim de inúmeras situações de tensão e perante as dificuldades governativas, o gabinete de Vasconcelos Correia pediu a demissão a 4 de junho de 1912. Ainda se tentou uma solução suprapartidária, mas o ex-primeiro ministro recusou, criando-se um vazio de poder no País, que só a 16 desse mês seria ultrapassado com a nomeação de Duarte Leite para chefe de governo.
Nesse gabinete de Duarte Leite pontificou Vasconcelos Correia como ministro dos Negócios Estrangeiros, mantendo-se no cargo até ao fim do governo em 8 de janeiro de 1913, quando é formado um novo executivo, liderado por Afonso Costa, um político fortemente anticatólico. O novo titular dos Negócios Estrangeiros foi António Macieira, um dos responsáveis pelas convulsões em torno da questão religiosa de 1911-1912. Entretanto, Vasconcelos Correia regressa a Madrid a 8 de agosto de 1914, como Ministro Plenipotenciário de Portugal. Esta permanência em Madrid não deixou de ser difícil, pois eclodira por essa altura a Primeira Guerra Mundial, com a Espanha a posicionar-se na neutralidade e Portugal prestes a envolver-se militarmente no conflito.
No fim da Guerra, Vasconcelos Correia representou Portugal nas Conferências de Paz, ganhando ainda maior experiência nos difíceis meandros da complicada diplomacia internacional de então. Esse tirocínio foi extremamente importante para o seu desempenho na Sociedade das Nações (SDN), em representação de Portugal, instituição na qual presidiu a várias comissões e projetos políticos. Foi, por exemplo, graças à mediação de Vasconcelos Correia que se resolveram alguns conflitos regionais, como o do Chaco (região pantanosa) entre Bolívia e Paraguai (1932-1935) ou a questão entre a Jugoslávia e a Hungria (1935), entre outras. Era também o diretor da secção da SDN no ministério dos Negócios Estrangeiros português. Era uma figura muito respeitada nos corredores da SDN e nos grandes areópagos europeus, tendo sido por isso eleito presidente da instituição em maio de 1935, sendo um ano depois nomeado delegado permanente e presidente da "Comissão dos Dezoito", grupo de pressão constituído por alguns dos mais decisivos países da Sociedade. Teve um importante papel na aplicação de sanções à Itália devido à sua invasão da Etiópia, ainda que de pouco tenham servido tais severidades, pois o regime de Mussolini não mostrou muito crédito pela SDN. Em 1937 foi afastado do lugar de delegado português junto daquele organismo, por limite de idade.
Fora da carreira política e diplomática, Vasconcelos Correia pertenceu à Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, à Associação dos Médicos Portugueses e à Assistência Nacional aos Tuberculosos, cuja doença sempre mereceu a atenção por parte daquele médico. Foi condecorado inúmeras vezes, em Portugal como no estrangeiro. Colaborou em inúmeras publicações médicas e em outros periódicos nacionais, como o País ou o Mundo.
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