Veludo Azul

Realizado em 1986 por David Lynch, o thriller Veludo Azul, cujo nome original é Blue Velvet, explora determinados temas recorrentes no seu percurso cinematográfico, sendo, de certa forma, uma obra emblemática daquilo que caracteriza o trabalho deste carismático realizador norte-americano. Veludo Azul é um filme bizarro, um olhar altamente pessoal e original sobre o lado obscuro de uma pequena cidade americana - o tipo de cenário habitual na cinematografia de Lynch - aparentemente sossegada, cujos habitantes levam uma vida pacata e tranquila. Esta cidade representa, de início, a ideia do sonho americano dos anos 80, até que, na sequência da descoberta da pista de um crime, começa a desvendar-se, a pouco e pouco, um outro mundo, maligno e perigoso. É a subversão do aparente, da suposta perfeição, da normalidade. Embora o filme se desenvolva em torno de um crime que um jovem - interpretado por um dos atores fetiche de Lynch, Kyle MacLachlan - procura resolver, face ao aparente desinteresse da polícia local que parece esconder algo, Veludo Azul vai revelando um interesse mais profundo pelos mistérios do desejo e da perversão, que levarão, em última análise, à descoberta do próprio lado obscuro do inocente investigador. Usando uma atmosfera e um estilo inspirados no film noir das décadas de 40-50, o realizador procura, assim, desafiar o espectador e, de certa forma, subverter as suas noções de inocência, sexualidade e amor. A escolha das personagens deste filme parece ter sido feita para servir esse propósito, bem como o de confrontar as existências do Bem e do Mal, outro dos temas recorrentes da filmografia deste realizador. Por um lado, temos a presença dos dois jovens heróis, representado por MacLachlan e por Laura Dern, representantes do Bem, que serão confrontados com dois ícones do cinema, atores já maduros e, aqui, encarnações do Mal: Isabella Rossellini, propositadamente caracterizada de forma a perverter a sua imagem associada à beleza perfeita, e Dennis Hopper, com o seu ar sarcástico e corrupto. Veludo Azul é também visualmente interessante, densamente saturado por um esquema de cores vermelha, branca e azul, capturado pela fotografia magistral de Fredrick Elmes, e acompanhado pela música marcante de Angelo Badalamanti. Apesar de ser um filme audacioso, perturbador e demasiado denso para ser apreendido de imediato, alcançou, também com a ajuda destes mesmos fatores, o interesse da crítica e do público, tendo ganho o estatuto de um filme de culto. Veludo Azul garantiu, em 1987, a nomeação de David Lynch para os Óscares da Academia, na categoria de Melhor Realizador.
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