Vespeira

Pintor português, Marcelino Macedo Vespeira nasceu a 9 de setembro de 1925, no Samouco, Alcochete, e morreu a 21 de fevereiro de 2002. Apesar de oriundo de uma família pobre e sem quaisquer ligações às artes plásticas (o pai era pescador e camponês e a mãe doméstica com a 4.a classe), Vespeira revela aptidão para o desenho ainda na escola primária. Em 1937 matricula-se na Escola de Artes Decorativas António Arroio, Lisboa, aí tendo como diretor o pintor Falcão Trigoso. A frequência nesta escola durante cinco anos possibilitou-lhe o convívio com o meio intelectual lisbonense em tertúlias e cafés da cidade. Em 1942 matriculou-se no curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa que abandona nesse mesmo ano devido a divergências políticas com o diretor Cunha Bruto. Passa a trabalhar com Fernando Azevedo e outros jovens artistas para o ETP (Estúdio Técnico de Publicidade) onde desenha cartazes, logótipos e montras. Começa a frequentar A Brasileira do Chiado e o Café Chiado, onde conhece alguns artistas da geração anterior como Almada Negreiros, Eduardo Viana, Abel Manta, entre outros.
A par das iniciativas de conjunto com o grupo de antigos alunos da Escola António Arroio (Fernando Azevedo, Júlio Pomar, Pedro Oom, etc.), realiza uma série de aguarelas de tom naturalista que retratam várias zonas da cidade de Lisboa. Entre 1943 e 1944 exercita um expressionismo essencialista na série Cavador, conjunto de desenhos a carvão sobre papel, sugeridos pelo lavrar da terra no Samouco. A prática artística não apresenta ainda qualquer compromisso estético consequente, apoiando-se em técnicas mais espontâneas (desenho e aguarela).
A consciencialização sobre os desequilíbrios sociais e a vontade de mudar o mundo, surgida após a Segunda Guerra Mundial, motivam a fase seguinte da sua obra na qual se aproxima das ideias defendidas pelo neorrealismo literário, acompanhando o entusiasmo de Júlio Pomar e Pedro Oom por uma arte de conteúdo e valor social mais interventivo. Bom exemplo desta fase é o óleo Apertado Pela Fome (1945) que integrou, no ano seguinte, a 1.a Exposição Geral de Artes Plásticas na SNBA. Em 1947, depois de uma cisão com a estética neorrealista, torna-se cofundador, em outubro, do Grupo Surrealista de Lisboa, juntamente com nomes como José-Augusto França, Fernando Azevedo, Mário Cesariny, Alexandre O'Neill, entre outros.
Inicia, então, na sua pintura, uma primeira fase surrealista, mas ainda resultante de um certo pendor neorrealista. Em agosto de 1949 passa uma temporada nas ilhas Berlengas na companhia de Fernando Lemos. O contacto direto com o mar e a natureza selvagem da ilha produziu um efeito extraordinário na sua obra, orientando-a para uma confluência formal e sígnica mais espontânea e de valor abstracionista. Daí resulta uma segunda fase surrealista com destaque para obras como Parque de Insultos (1949), A Flor de Sade (1950) ou ainda uma longa série de óleos sem título que vai do n.° 45 até Noctívolo, já de 1951. Neste ano, a influência da dança flamenga marca o início de uma fase em que o ritmo da música e da dança determinam o desenvolvimento formal da sua pintura, fechando o ciclo de influência direta da estética surrealista.
Em 1952 realiza a sua primeira exposição individual em conjunto com Fernando Azevedo e Fernando Lemos. No ano seguinte é um dos escolhidos para representar Portugal na 2.a Bienal de Arte Moderna de São Paulo, Brasil.
Em 1955 descobre o jazz e a sua pintura passa a intuir os ritmos livres e abstratos dessa estética moderna e cosmopolita. Em 1956, numa viagem a África, Moçambique, fica fascinado, em particular, com os ritmos e as danças tribais no interior de Moçambique, algo que influenciará decisivamente a sua pintura. A partir daí substitui os signos de inspiração jazzística por novas tensões formais e cromáticas que tendem a expandir-se na totalidade do espaço pictórico. Em 1957 participa na 1.a Exposição de Artes Plásticas da Fundação Gulbenkian na SNBA onde apresenta uma série de desenhos (Ritmo e Óleo 105) que confirmam a nova orientação abstrata e dinâmica da sua pintura.
Em 1959 Vespeira abandona e dilui a tensão ritmada de formas bem definidas para dar mais valor a uma fusão espacial de conjunto. Esta fase irá manter-se durante quase uma década mas a obra Natiforme (1967) denota já que, embora orientado ainda por valores espaciais abstratos, existe uma vontade de regresso à figuração erótica, tendência esta que se desenvolverá mais declaradamente nas décadas de setenta e oitenta. O seu trabalho assume, cada vez mais, um jogo lúdico e harmonioso inspirado nas simetrias da natureza, por vezes com uma festividade cromática passível de ser aproximada à arte pop. O óleo Noviagem (1983) reúne a partilha formal entre o surrealismo e a abstração espacial. Em 1989 pinta o seu último óleo Fontela devido a uma doença grave que obriga o pintor a abandonar o seu trabalho. A partir desta data foram realizadas várias exposições retrospetivas da sua obra como, por exemplo, a do Museu do Chiado, de junho a setembro de 2000, que consagrou o artista com o Prémio Nacional de Artes Plásticas da AICA.
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