Via Militar de Cale (Porto) a Bracara (Braga)

A via militar romana que ligava a cidade do Porto a Braga constituía apenas um dos três troços do itinerário principal que partia de Lisboa rumo ao Norte ou se preferirmos, que ligava, pelo litoral, a província da Lusitânia à província da Calécia.
A sua reduzida extensão - 35 milhas (cerca de 56 quilómetros) - explica o facto de as fontes antigas referenciarem apenas duas estações viárias correspondentes ao limite norte - Bracara Augusta (Braga) - e sul - Cale (Porto) desta trajetória.
Cale seria, pela sua localização e funções, das estações viárias mais importantes não apenas deste troço mas também do itinerário principal. A sua identificação com a cidade do Porto, já sugerida no século XIX, posteriormente preterida em relação a Vila Nova de Gaia, parece ser hoje em dia aceite e defendida por diversos arqueólogos de nomeada. A estrutura do povoado é ainda pouco conhecida. Sabemos que se localizaria na área mais antiga da cidade pois pequenas escavações arqueológicas, quase todas executadas ao ritmo, sempre apressado, das obras de urbanização e das infraestruturas de saneamento, revelariam aí muitos testemunhos da presença de um povoado da Idade do Ferro e de um núcleo urbano romano.
O povoado erguer-se-ia no morro da Pena Ventosa (na zona da Sé apareceram vestígios de um templo romano) estendendo-se igualmente para o morro da cidade e para a encosta do desaparecido rio de Vila, hoje encanado sob a ruas Mouzinho da Silveira e S. João.
O Porto de Cale desempenhava um papel de grande destaque nas comunicações da Calécia e da Lusitânia não só como eixo viário (constitui o ponto terminal da estrada que partia de Braga) mas também como porto fluvial e marítimo. Enquanto aglomerado urbano desempenhou, assim, a tríplice função - mansio, traiectus e portus.
As estradas romanas tinham que ter pontos de paragem para a muda dos cavalos, descanso e alimentação dos viajantes.
Em S. Marçal de Alvarelhos, concelho de Santo Tirso, a 3,5 quilómetros do rio Ave, foi identificado um grande oppidum ou castro romanizado onde se encontrou, em local próximo, um marco miliário do tempo do imperador Adriano. O povoado prolonga-se pelo Monte Grande, cota 222 metros, numa área muito extensa mas ainda mal conhecida. Aqui foram recolhidos materiais datados de finais da Idade do Bronze e da Idade do Ferro que comprovam uma ocupação bastante antiga do castro. O povoado, dotado de muralha, apresenta vestígios de muitas estruturas de planta quadrangular e circular e de um edifício termal entre os dois montes referidos. Foi romanizado desde cedo como atestam ainda as inscrições, os tesouros monetários e outros inúmeros materiais aqui encontrados.
S. Marçal situa-se a cerca de 12 milhas (cerca de 19 quilómetros) em relação a Cale e 23 milhas (cerca de 37 quilómetros) em relação a Bracara. A mansio deverá corresponder à zona do Muro ou Quinta do Paiço, nas imediações deste castro.
A última estação da estrada que vinha de Olisipo (Lisboa) é efetivamente Bracara Augusta que foi igualmente ponto de ligação de mais quatro estradas.
Localiza-se numa colina proeminente da bacia do Cávado com vestígios de povoamento antigo castrejo (finais da Idade do Bronze e Idade do Ferro) no denominado Castro Máximo e na área urbana de Braga, local posteriormente escolhido pela administração romana para a fundação de uma cidade nova, que no século III seria nada mais que a capital da província da Callaecia. Seria provida de muralha, de forma elíptica e de grande extensão e sabe-se que a zona habitacional ocuparia a área do atual Seminário de Santiago.
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