voz

A voz é o modo como é feita a perspetivação da ação verbal. Existem essencialmente dois processos gramaticais para exprimir esta perspetivação do acontecer verbal: a voz ativa e a voz passiva.
Na voz ativa, a ação verbal é perspetivada a partir do agente/ sujeito, sendo este o responsável pela ação e sendo a sua a presença obrigatória:

i) Um rapaz desconhecido entregou-lhe a encomenda.
Na voz passiva, o acontecer verbal é encarado a partir do paciente, ou seja, o objeto direto sofre uma transformação sintática que o coloca na posição de sujeito da frase, embora mantenha o mesmo valor semântico de paciente ( i.e., de entidade que sofre a ação realizada pelo agente "um rapaz desconhecido"). Esta transformação é acompanhada da mudança do verbo da voz ativa para a passiva, através do utilização do verbo ser mais o particípio passado do verbo da voz ativa.

ii) A encomenda foi-lhe entregue por um rapaz desconhecido.

Se todos os verbos possuem voz ativa, o mesmo não acontece para a voz passiva, dado que essa transformação só é possível no caso dos verbos transitivos, por serem aqueles que selecionam objeto direto.
Se o verbo auxiliar da voz passiva for estar, estamos perante a designada passiva de estado, não indicando um processo mas sim um estado:

iii) A encomenda está entregue.

Há contudo, outras formas de perspetivação da ação verbal. Quando o sujeito se dissolve numa partícula apassivante com função equivalente ao agente da passiva e o verbo concorda com o sujeito, que aparece posposto, estamos perante a voz média:

iv) Vendem-se apartamentos.
v) Compunham-se operetas em Itália.

Quando nem agente nem paciente estão expressos e se recorre à utilização de um "se" com valor de sujeito impessoal, estamos perante outra forma de perspetivação verbal com sujeito impessoal:

vi) Aqui não se fuma.

Outra forma de diluir o sujeito/ agente é através do sujeito indeterminado, que se esconde no morfema de 3.ª pessoa do plural do verbo:

vii) Ontem encerraram mais cedo.

Existe ainda a chamada passiva reflexiva, que consiste em acrescentar às forma ativa do verbo os pronomes pessoais me, te, se, nos, vos, se, com o significado de "a si próprio/mesmo". O agente tem que possuir características de portador da ação, com traços de intenção e de [+ animado]:

viii) O Pedro cortou-se na mão.

Quando o sujeito da ação não possui propriedades de [+ animado], tendo de facto sofrido a ação, estamos perante uma construção ergativa. O agente da ação é completamente omitido restando apenas o paciente e o verbo, ou esconde-se num se ergativo:

ix) O copo partiu-se.
x) O copo partiu.
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