Y

Y, uma jovem de 35 anos, e Fernão, um escultor de 55 anos, são a dupla amorosa que protagoniza o único romance escrito por David Mourão-Ferreira, intitulado Um Amor Feliz (1986). Todas as indicações objetivas sobre o retrato, o passado e o presente da vida de Y (sabe-se vagamente que possui ascendência estrangeira; que é casada e mãe; que a imagem do pai exerceu sobre ela, na infância, um grande fascínio; que guarda de uma viagem a Roma uma recordação emocionada; que os seus olhos são "mais que verdes, mais que azuis"; que alguns dos traços que a definem psicologicamente são a simplicidade e a insegurança; que um dos seus adereços imprescindíveis nos encontros íntimos com Fernão é um xaile branco) são relegados, pelo narrador, para um plano de menor importância relativamente ao que ela simboliza na narrativa. Com efeito, desde o nome, Y (nome-grafismo encontrado por analogia com a postura da amante, nua com os braços estirados para trás), à descrição física, tudo nela converge, pelo seu carácter inefável, para a assimilar a uma encarnação da Beleza, a um arquétipo feminino, qualificado sempre em função de expressões ou atributos que remetem para a atemporalidade, para a pureza, e até para uma divinização; a caracterização de Y tende, assim, para assumir-se como o diâmetro oposto da caracterização de Fernão, personagem humanamente instável, imperfeita e problemática.
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