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Deus

O termo "Deus" deriva do indo-europeu Diêus e significava "brilhar" ou "dia". Diêus era o Deus superior dos povos indo-europeus, encontrando-se entre os indianos o Dyaus, o deus do Céu.
Na conceção tradicional e religiosa, Deus é aquele que organizou o mundo e que o sustém. Pelo pensamento, ou por algo análogo ao que no homem é pensamento, Deus trouxe o cosmos à existência. A inteligência que por toda a criação se observa e a beleza patente na natureza são reflexos, são "pegadas" - na linguagem de São Boaventura (franciscano italiano do século XIII) - de Deus. Para o homem antigo era fácil ter uma conceção deste tipo porque a natureza ainda era sinal de pureza. O homem hodierno já dificilmente pode imaginar o que era esta conceção, pois a natureza tornou-se sinal de produção, não é vista como algo de divino, é apenas uma matéria, um recurso disponível para dela usufruir. Por outro lado, ainda, o homem criou o mundo da ciência e da técnica que lhe dá a confiança suficiente em si próprio para poder afirmar a "morte de deus" (Nietzsche). Antes ele sentia-se desprotegido face às forças que se manifestam na natureza, hoje julga dominá-las; no fundo, assumiu para si próprio o papel reservado a Deus: a ciência manipula a vida, cria espécies novas, cura ou inflige doenças como se fosse o próprio Deus.
O homem antigo era espontaneamente religioso, era um homo religiosus. Para ele a natureza era vivida como sagrada, como uma teofania. Por intermédio dela ele podia desvendar os atributos de Deus. O homem primordial via no céu a manifestação da transcendência, do eterno, do masculino, o pai de onde vem a chuva fecundadora ou o bélico trovão; do mesmo modo via na terra a imanência, o tempo cíclico, o feminino, a mãe que alimenta os seus filhos, os homens.
Este tipo de homem não vivia num politeísmo radical, com efeito aceitava simultaneamente a presença de muitos deuses, sendo, todavia, um só de entre eles o "pai dos deuses", o Deus supremo. É este facto que permite reconhecer a unidade que subjaz à pluralidade dos deuses. Tratava-se, portanto, de um monoteísmo politeísta. Entre os Maori o Deus supremo é Iho, entre os Koyaks é o "Senhor do Alto", para os Ainous é o "Criador divino dos mundos".
Todas as religiões que têm como fundamento Deus, acentuam, cada uma à sua maneira, um ponto particular da conceção que fazem da divindade.
O Judaísmo traz uma novidade relativamente à conceção de Deus, é talvez a primeira religião a acentuar de modo tão radical o monoteísmo, depois seguido pelo Cristianismo e pelo Islamismo. Todas as divindades são rejeitadas, o único Deus é Jeová. A história do Antigo Testamento é, no fundo, de algum modo a história da vitória de Jeová sobre os outros deuses, tendo escolhido como seu paladino o povo hebreu. No Deuteronómio diz-se por exemplo que "Não há nada além d'Ele"; no Êxodo afirma-se: "Não terás outros deuses diante de Mim". A mesma radicalidade aparece no Islamismo: "Não há outra divindade senão Deus e Maomé é o seu Profeta".
O Taoísmo define Deus na sua transcendência e na sua imanência, é o que chamam, respetivamente, tao e , o princípio e a sua ação; o livro base do taoísmo chama-se precisamente Tao-Tê Ching, quer dizer, o Livro (Ching) do Princípio (Tao) e da sua Ação (Tê). A transcendência do princípio divino é logo afirmada no primeiro capítulo deste livro: "O Tao a que se pode atribuir um nome/não é o Tao eterno/O nome que se pode pronunciar/não é o nome eterno". O Tao é mistério, é insondável, está acima do mal e do bem, do belo e do feio. Neste ponto difere das conceções religiosas do Cristianismo ou do Islamismo por exemplo, para quem Deus é bondade e beleza.
As religiões ocidentais, na sequência das religiões cósmicas dos homens primordiais, olham para o mundo como uma criação de Deus. A beleza e a bondade de Deus, que se manifestam na natureza, são sobretudo acentuadas pelo Cristianismo e pelo Islamismo. No Cristianismo isso é patente de forma nítida no movimento franciscano e no Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas de São Francisco à "irmã" criação, louvando o Sol, a Lua e as estrelas, o vento, a água, o fogo, a mãe terra e até a "irmã morte". No Islamismo evidencia-se a mesma atitude em frases corânicas como: "Para onde quer que te voltes, aí está a Face de Deus" (Surata da Vaca). A introdução do Corão, a Surata de Abertura, é bem esclarecedora quanto aos atributos da divindade: "Em nome de Deus, Clemente e Misericordioso!/Louvado seja Deus, Senhor dos Mundos,/Clemente e Misericordioso,/Senhor do Dia do Julgamento!/A Ti, somente, adoramos; de Ti, somente, esperamos proteção!" Na Surata do Fumo diz-se ainda: "Não foi por acaso que Nós criámos os céus, a Terra e o que está entre eles./Criámo-los com verdade, mas a maioria dos homens não o sabe." Ou na Surata dos Ventos Dispersantes: "Há sobre a Terra e em vós sinais para aqueles que creem firmemente." Na Surata dos Filhos de Israel diz-se que "Os sete céus, a Terra e tudo o que neles se encontra celebra os Seus feitos; não há nada que não celebre os Seus feitos". A criação é, portanto, um ato de louvor contínuo das criaturas ao Criador.
O Cristianismo acentua a bondade de Deus que dá o seu próprio filho, que se dá a si próprio para redimir a humanidade; não podia haver gesto mais bondoso e misericordioso do que o de se dar a si próprio pelos homens.
Deus é o conceito supremo de quase todas as religiões (o Budismo, por exemplo, não segue o mesmo preceito religioso), é o seu ponto de partida e de chegada, ainda que cada uma acentue uma qualidade ou atributo particulares.
O misticismo afirma a possibilidade de conhecer Deus diretamente; o místico anseia por tal. A história do misticismo, de ocidente a oriente, abunda de relatos desse tipo.
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Como referenciar
Porto Editora – Deus na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2022-05-29 06:55:01]. Disponível em

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