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Época de D. João V

O longo reinado de D. João V (1689-1750), que se estendeu por 43 anos, vai pautar-se pela tentativa de aplicação das teorias absolutistas, à semelhança do que se sucedia na corte francesa. A sua época seria assim marcada, em termos políticos e económicos, pelas doutrinas de centralização régia, que lutavam contra as incoerências da sociedade portuguesa. É igualmente eternizada através do esplendor da corte e da sua vida social e intelectual, conhecida pelos rituais faustosos, pela pompa dos autos de fé, pelas touradas, enfim, pela magnificência da sua arquitetura, de interiores profusamente decorados em talha dourada, mármores e azulejos, cujo expoente máximo é o convento de Mafra. Aqui se unem as realidades do barroco: o poder, a cultura e a religião. É, assim o espaço do rei e da corte, santificado pela presença da Igreja e unido pela sabedoria, cujo centro era a sua grande biblioteca.
Este período é inseparável da afluência das riquezas minerais do Brasil. Ouro e diamantes irão ter o mesmo papel que as especiarias de Quinhentos na vida portuguesa: assiste-se ao declínio das indústrias, com exceção para as que produziam bens sumptuários que forneciam os cortesãos ou a burguesia mercantil; ao escoamento das riquezas para outras nações; ao aumento do número de emigrantes em direção às colónias na procura de uma nova vida; aos sinais de debilidade da burguesia, cada vez menos empreendedora em termos de comércio interno, fascinada pelos cargos públicos do funcionalismo, pelas profissões liberais, pelo trato internacional e colonial e pouco voltada para o desenvolvimento do país, enquanto a classe nobre se lisonjeava com a sua posição dentro da sociedade, enchendo os conventos de mulheres sem casamentos proporcionados, o que se refletiu na devassidão da disciplina conventual.
Esta é também uma época de contradições a nível cultural, marcada pela manutenção da velha hierarquia social, em que predomina o espírito da nobreza e do clero mas que, ao mesmo tempo, pretende integrar-se no ambiente europeu, repleto de novidades técnicas. Tal facto abre as portas aos letrados portugueses formados no estrangeiro, bem como a eruditos de outros países, que ficaram conhecidos como estrangeirados. Este grupo luta pelo aburguesamento do reino, sinónimo de modernização, tendo pela frente a tradicional ordem social. Os seus projetos de modernização eram essencialmente de ordem técnica, económica e pedagógica, trazendo inovações na área da cartografia, da medicina, da engenharia, etc., como atesta a nova demarcação fronteiriça feita por Manuel de Azevedo Fortes, cuja obra o Engenheiro Português (1728/29), formou grande parte dos técnicos do seu tempo. Homens como o conde de Ericeira, D. Luís da Cunha, Alexandre de Gusmão, Ribeiro Sanches, entre muitos outros, trazem consigo um espírito antibarroco e antiescolástico, iniciando a rutura com o sistema dominado pelos jesuítas. Ficam assim lançadas as bases teóricas do programa reformista do Marquês de Pombal, que será motivado pelo enfraquecimento das remessas auríferas brasileiras.
D. João V, rei de Portugal de 1706 a 1750 (retrato patente na Academia das Ciências, em Lisboa)
É neste contexto de abertura aos letrados e artistas estrangeiros que chegam a Portugal homens como Domenico Scarlatti, Ludovice, Pillement ou Nasoni, e são possíveis obras de grande envergadura como as do Convento de Mafra, a igreja e a torre dos Clérigos, no Porto, o aqueduto das Águas Livres, em Lisboa, entre outras realizações da época. Esta mesma ligação à cultura europeia levou à criação da Academia Portuguesa das Artes em Roma, por onde passavam os bolseiros do rei e de outros mecenas.
Paralelamente verifica-se uma reforma do ensino, que devia acompanhar o desenvolvimento técnico. Privilegia-se o ensino da língua materna, em detrimento das aulas clássicas, e os valores experimentais e matemáticos, procurando seguir o espírito das Luzes. Nesse sentido é publicado o Vocabulário Português, de Rafael Bluteau, precursor dos dicionários de português, e impulsionada a manutenção das bibliotecas. D. João V criou a biblioteca de Mafra, valorizou a biblioteca do Paço e reformou a da Universidade de Coimbra, cujo edifício é um magnífico exemplar da arquitetura joanina.
A preparação dos jovens aristocratas passa a ser feita tendo em consideração as necessidades da carreira militar e diplomática (Colégio dos Nobres). Também não foi esquecida a divulgação dos novos processos de produção fabril e de exploração agrícola. Estas reformas, que se insurgiram contra a escolástica dominante no ensino, culminaram com a publicação da obra de Luís António Verney, em 1746, Verdadeiro Método de Estudar para ser útil à República e à Igreja.
Em termos teatrais, verifica-se a decadência do teatro de capa e espada espanhol e a divulgação da ópera italiana. Contudo, o declínio do primeiro e os custos avultados do segundo levaram ao surgimento de outro tipo de espetáculo: o teatro de bonecos articulados ou bonifrates, uma imitação burlesca da ópera. O seu grande impulsionador literário foi António José da Silva, o Judeu, cuja breve carreira foi brualmente interrompida pela Inquisição.
Literariamente, é uma época de típica escrita barroca, pautada pelo exacerbamento da linguagem e a "mania" das grandezas, de que faz eco o cancioneiro Fénix Renascida, publicado por D. Francisco Manuel. De forma genérica, a produção literária deste período esconde por detrás das suas fachadas barrocas artificiais e pomposas a decadência da nobreza, o "beatismo" da sociedade de algumas liberalidades entre os religiosos, como atesta a produção literária (mais epistolar) dos conventos femininos. A falta de vocação para a vida eclesiástica levava muitas religiosas a criarem uma ligação com a vida sentimental através da escrita, sendo algumas obras textos líricos dotados de um certo "erotismo" místico. O seu mais alto símbolo são as Lettres Portugaises, que se referem à paixão de Sóror Mariana Alcoforado por um oficial do exército de Shoenberg.
A nível intelectual, o reinado de D. João V viu ainda nascer a Academia Real da História (1720), apologista da historiografia erudita e documentada, iniciando-se uma nova linha que se demarca das deformações apologéticas dos séculos anteriores (crónicas). Daqui saíram obras como a Biblioteca Lusitana, de Diogo Barbosa Machado, e a História Genealógica da Casa Real Portuguesa, em três volumes, da autoria de António Caetano Sousa, que na sua sequência publica as Provas e um Índice Geral.
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Como referenciar
Porto Editora – Época de D. João V na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2023-02-03 00:00:27]. Disponível em
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