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Mutações Culturais (1.ª metade do séc. XX)

O século XX foi talvez a época que conheceu mais e mais profundas transformações a nível cultural da História, baseando todas as formas culturais seguintes. Com uma atenta análise aos fenómenos políticos, sociais e científicos torna-se clara a razão da existência de manifestações como o cinema neorrealista, a pintura "fauvista" e o dodecafonismo de Arnold Schönberg.
No início do século XX Paris era a capital cultural, tendo-se realizado no ano de 1900 a Exposição Universal, que deslumbrou os visitantes, a par dos II Jogos Olímpicos da Era Moderna e das exposições de obras de Claude Monet e Auguste Rodin, entre outros, contribuindo estes fatores para a evolução cultural bem patente neste início de século. Exemplo destas profundas transformações foi o estilo reacionário aos rígidos cânones classicistas da "Arte Nova" (nome dado por uma loja parisiense que comerciava obras deste novo estilo), com raízes no final do século XIX e prolongamento pelo início do século XX, absorveu para uma das suas bases a arte japonesa (nomeadamente estampas). Tal foi possível, entre outros fatores, pela divulgação desta cultura através das exposições mundiais, que alertaram uma civilização altamente industrializada, e sofredora das consequências sociais desastrosas provenientes da revolução industrial, para o afastamento da Natureza a que se tinha chegado. Nas palavras do dandy de naturalidade francesa Gautier, "a arte esteve lado a lado com a indústria. Estátuas brancas erguiam-se entre máquinas negras. As pinturas estendiam-se ao lado de ricos tecidos do oriente", referindo-se à Exposição Mundial de Paris, em 1867. A passagem de modelos altamente cerebrais para uma fonte de inspiração radicada na alma criou uma onda de preferência pelo autêntico, em que as energias, segundo a filosofia zen, fluem entre o interior e exterior sem barreiras, através de materiais adequados e construções simplificadas, valorizando a organicidade. Por seu lado, o pintor Claude Monet defendeu a pintura como uma entidade própria, não somente reprodutiva, e instaurou a nova e revolucionária técnica do Impressionismo, levando à perceção dos quadros mais pelas sensações provocadas tecnicamente que pela imitação exata das coisas. O Fauvismo, técnica pictórica de representação "tosca" (que seguia o mesmo ideal independentista da pintura de Monet), primitiva e agreste com contrastes coloridos manifestou-se a partir de 1905, com um papel preponderante de Henri Matisse. Mais uma reação ao academismo, o próprio nome, derivado de fauve ("fera") indica o cunho reacionário e vocacionado para a valorização dos sentidos e das realidades intrínsecas e espontâneas, mais que as aparentes. Era a passagem para o âmbito artístico da instabilidade social e intelectual características deste início de século, com uma observação e crítica incessantes e inconformadas. O império das sensações manifestou-se igualmente numa nova forma realista de interpretação e composição operáticas, que realçava o dramatismo e lançou para a fama a nível mundial o tenor italiano Enrico Caruso, dono de uma voz expressiva e prenhe de timbres variados. Foi também no princípio do século XX que uma nova forma artística, a representada pelos cartazes, atingiu o auge, persuadindo e atraindo o público a eventos diversos, tendo-se tornado a Catalunha um dos centros primaciais desta manifestação a partir de 1904. Cerca de cinco anos depois começa-se a distinguir o Cubismo, pela mão de Pablo Picasso e inaugurado pela obra "Les Demoiselles d'Avignon", sendo este estilo artístico símbolo do desconstruir racional, analítica e sintética da realidade que se opõe às correntes sensoriais supra mencionadas (a "Guernica" - 1937 -, deste pintor, é o mural de excelência que funde este género com as dramáticas consequências da Guerra Civil espanhola). As correntes nacionalistas ver-se-iam transportadas para o âmbito musical por compositores como os franceses Paul Dukas, Maurice Ravel e Claude Debussy e os espanhóis Isaac Albéniz, Enrique Granados e Manuel de Falla. Do expressionismo pictórico sobressaíram dois grandes movimentos alemães, Die Brücke (A Ponte, formalista e homogénea estilística e tematicamente) e Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul, de tendência autenticista, espiritual, contra convencionalismos e diferente da tradição da Europa. As figuras principais foram Franz Marc e Wassily Kandinsky; esta influência expressionista influenciaria também o cinema, destacando o filme do germânico Josef von Stenberg O Anjo Azul, 1930). Na década de 1910 foi a vez do austríaco Arnold Schönberg romper com os cânones melódicos da música, instaurando o dodecafonismo, inovação radical e por muitos mal aceite pela estranheza do desrespeito das leis da tonalidade. De igual forma, também nesta década surgiu o cinematógrafo, pela mão de Thomas Edison. A estreia, em 1913, da Sagração da primavera, de Igor Stravinsky, causou um burburinho tão intenso quanto a novidade dodecafónica pela característica selvagem, primitiva e desvairada, criada com ajuda de dissonâncias, que relembra ao Homem a união com a Natureza. Em 1913 Marcel Duchamp inaugurou o polémico movimento dos ready-made, que reflete o gosto pelas máquinas e pela industrialização, ao expor objetos pré-fabricados em conjuntos criados pelo artista. O ator Charlie Chaplin plasmou no cinema as realidades políticas e sociais, assim como dificuldades vividas pelo povo americano no início do século, sobretudo na Grande Depressão. As críticas e tendências políticas subjacentes em filmes como Vida de Cão (1918) e O Grande Ditador (1940) valeram-lhe a antipatia americana. A partir de 1916 difunde-se o movimento Dada (ou Dadaísmo), a partir do Cabaret Voltaire (Suíça), contra os conceitos artísticos instituídos e vocacionado para o absurdo e para a aniquilação da imagem. Em França surgem no ano de 1918 os Caligrammes, poemas de Guillaume Apollinaire cujas palavras formam objetos, estabelecendo uma nova relação entre as palavras e as coisas e criando uma impressão estética a dobrar. A Bauhaus, criada por Walter Gropius, surge no seguinte ano, movimento artístico que visava a criação de uma arte industrial, valorizando a arquitetura como obra de arte total. Paralelamente, Marcel Proust notabilizou-se com os seus romances (Du Cotê de Chez Swann, 1913, Albertine Disparue, 1925 e Le Temps Retrouvé, 1927), que alteraram completamente a conceção de "tempo absoluto" literário. A seguir ao final da Primeira Guerra Mundial, com a necessidade de restaurar a Europa enfraquecida, surgiu também a necessidade de fazer reviver a cultura, pelo que se instituiu o Festival Anual de Salzburgo para a recriação das obras dos grandes mestres da música clássica. Em 1921 Luigi Pirandello estreia em Roma a sua peça teatral Seis personagens em busca de um autor, que marca um ponto de viragem no teatro ao desconstruir o papel de cada interveniente numa encenação e fazer refletir sobre a condição própria das personagens. O alemão Bertold Brecht seguiria esta senda nos seguintes decénios, criando uma rutura da concentração do espectador e lembrando-lhe que o que observa não é real, sendo a obra Mãe Coragem (1941) a mais notória neste sentido.
Nos anos 20 demarca-se na moda a célebre Coco Chanel, que institui uma moda mais leve, prática e com materiais baratos, masculinizando a mulher (cabelos curtos, modelos baseados na roupa masculina) e criando acessórios e novas combinações de formas e tecidos. A evolução da psicanálise causou impacto aos mais diversos níveis, entre os quais se contam o literário, concretamente na obra Ulisses (1922) do autor irlandês James Joyce, que marca o nascimento do romance moderno ao criar uma obra sem nexo, nascida dos monólogos interiores de um personagem tal e qual como eles ocorrem, sem lhes atribuir uma organização para que possam ser mais compreensíveis (Virgínia Woolf seguiria esta mesma senda, apesar de apresentar textos com mais nexo). O cinema documental faz o seu aparecimento com o documentário de 1922 Nanook of the North, que consta da vida de um esquimó durante um ano filmada pelo americano Robert Joseph Flaherty e atingiu fama mundial. Em outubro de 1924 foi publicado o Manifesto do Surrealismo, por André Breton, inaugurando uma vertente (também afetada pelas teorias freudianas) que atingiria todas as formas de arte e se caracterizava pelo plasmar automático do funcionamento real do pensamento, sem o revestir de artifícios que permitissem a compreensão. Foram Salvador Dalí, Giorgio de Chirico, Marx Ernst e Man Ray das personagens mais importantes neste contexto. A Exposição de Artes Decorativas e Industriais Modernas de 1925, realizada em Paris, marcou o aparecimento da Art Déco (dotada de esquematismo e simplicidade geométrica, com influência egípcia proporcionada pela descoberta do túmulo do faraó Tutankhamon em 1922 e destinada sobretudo aos mais ricos, que gostavam de ostentar objetos luxuosos) e a difusão europeia do Surrealismo. Entretanto, Antoni Gaudí i Cornet, arquiteto catalão que se destacou pelas técnicas, materiais e temáticas usadas, tornava-se uma referência do modernismo, não chegando a concluir a catedral da Sagrada Família, em Barcelona. A 6 de outubro de 1927 nasceu o cinema sonoro, em Nova Iorque, com a estreia de "O cantor de Jazz". A partir dos finais dos anos 20 aparece nos EUA a banda desenhada, criando-se progressivamente histórias por todo o mundo com heróis, como Tarzan, Popeye e Tintin, todos de 1929. Neste mesmo ano deu-se a primeira entrega de Óscares da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, uma passo gigante para a promoção e difusão que atingiria o cinema produzido nos EUA. Em 1933 inaugurava-se neste país um novo género cinematográfico com características de terror e fantasia, incluindo monstros como King Kong e Godzilla, passando por Dracula e Frankenstein. Nos anos 30 impõe-se também, a partir da Brodway, a comédia musical, que lançou para a ribalta compositores como George Gershwin (que lançou também, através da obra Porgy and Bess (1935), um novo género operático com intervenções de jazz e espirituais africanos) e atores como Ginger Rogers e Fred Astaire. Os pintores Diego Rivera e José Clemente Orozco notabilizaram-se pelas inovadoras pinturas públicas murais mexicanas do Palácio Nacional e do Palácio de Belas-Artes, respetivamente, tendo esta técnica sido originada pela revolução de 1910 contra o ditador Porfírio Díaz. Paralelamente, o escritor andaluz Federico García Lorca produzia uma obra literária e teatral eivada de pureza, folclore e surrealismo, até à sua morte por fuzilamento por mãos fascistas, em 1936. Frank Lloyd Wright distinguiu-se pela extraordinária inovação arquitetónica de fusão espacial harmónica, cuja obra mais relevante é a Casa da Cascata, na Pensilvânia, cujo início construtivo se deu em 1936. No seguinte ano foi a vez de Walt Disney realizar a Branca de Neve e os Sete Anões, primeira das afamadas longas-metragens de desenhos animados. A emissão por Orson Welles, via rádio, do romance de ficção científica A Guerra dos Mundos marcou o ano de 1938, ao aterrorizar os EUA com o pseudo-ataque marciano. Welles revolucionaria o cinema com O Mundo a seus Pés (1941), entre outros filmes. O existencialismo literário revela-se pela mão de Martin Heidegger, em 1927 (com O Ser e o Tempo), tendo conhecido um grande desenvolvimento com as obras de Jean Paul Sartre (A Náusea, 1938, As Moscas, 1943). O expressionismo abstrato, nascido da II Grande Guerra e que pretende plasmar através de novos processos as sensações tanto do pintor como do espectador, difundiu-se a partir do seu centro, Nova Iorque, pela mão de Jackson Pollock, a partir de 1947. Em 1943 o filme Casablanca tornou-se um ícone, ao servir um propósito político (persuadir os americanos da validade da entrada dos EUA na Segunda Grande Guerra, defendendo a França da ocupação germânica). Em 1945 desenvolve-se em Itália o cinema neorrealista, tendo como ponto de partida o filme Roma, cidade aberta, de Roberto Rossellini e recriando em ambientes absolutamente realistas (com uma maioria de atores não profissionais) as consequências autênticas da guerra. George Orwell atingiu a ribalta com o livro A revolta dos porcos (1945), crítica acerba ao regime estalinista, assim como pela obra 1984 (1948), em que fazia uma previsão do futuro levando o totalitarismo às últimas consequências. A Segunda Guerra Mundial marcou também muitas personagens do cinema, delineadas como possuidoras de poucos escrúpulos e traumatizadas, como foi o exemplo das encarnadas pela diva Rita Hayworth (Gilda, 1946, A bela do Pacífico, 1954), tendo-se tornado esta atriz também o símbolo sensual de toda uma época. No ano de 1946 surge igualmente o Festival de Cannes, que ganha dimensão internacional a partir de 1950 e no qual foram galardoados com a Palma de Ouro realizadores como Ingmar Bergman, Emir Kusturica e Luís Buñuel. Em 1947 estreou-se com La Gioconda (Ponchielli) a diva que marcará toda a ópera do século XX: Maria Callas, dotada de uma voz rica, potente e extremamente versátil, que lhe vale a adoração em todo o mundo. Neste mesmo ano a alta-costura conheceu o New Look de Christian Dior, que revolucionou os modelos femininos tornando-os elaborados e chamativos.
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Como referenciar
Porto Editora – Mutações Culturais (1.ª metade do séc. XX) na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2022-07-05 03:50:47]. Disponível em
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