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Nós matámos o cão tinhoso

Nós matámos o Cão Tinhoso (1964) é visto como o projeto literariamente moçambicano lançado por Luís Bernardo Honwana na década de 60.
Esta novela desenha, no panorama moçambicano da época, a grande preocupação de fazer nascer, ou renascer, a ficção moçambicana: pode dizer-se que, com Nós matámos o Cão Tinhoso, se retoma a estrada real da narrativa moçambicana.
Cabe aqui dizer que Luís Bernardo Honwana - excelente narrador e com uma experiência pessoal vivida na sua própria condição de negro - faz do universo moçambicano o centro de análise das suas narrativas. A relação dialética colonizado/colonizador é dada, pelas formas mais subtis, através de várias personagens e situações: situação de exploração, de incompreensão, de injustiça, de alienação/desalienação, de sonho e de realidade.
Nós matámos o Cão Tinhoso insere o leitor em estruturas sociais violentas através de uma extraordinária capacidade de persuasão que envolve e move o leitor numa superior energia afetiva com o que é narrado.
No domínio da linguagem, vemos que o autor dá privilégio ao português fundamental, mas sempre enriquecido de aquisições linguísticas moçambicanas; a gramática, mesmo sendo moçambicanizada, está direcionada para a crença numa literatura africana, a partir do português, que vingue, já não como mera hipótese, mas sim como realidade válida e de futuro radioso.
Aparentemente desdramatizada - porque nos é narrada por uma criança, um jovem, que concentra em si toda a inocência, ingenuidade e pureza infantil - a novela vai-se revelando com um grau de violência afetiva crescente. De facto, somos inicialmente introduzidos numa "estória", num relato aparentemente sem importância de maior, dado que a voz narrativa do início imprime à narração um ritmo calmo, do qual resulta, num primeiro momento de leitura, qualquer coisa como um clima tranquilo. De imediato temos a nítida sensação de que não há uma necessidade apressada de meter o leitor no real objetivo da história: o tempo da narração custa a passar, as informações chegam muito lentamente, como que indiciando nada haver de muito forte ou urgente a ser dito. Esta desadequação de um título trágico - "Nós matámos o Cão Tinhoso" - com um ritmo inicial tão "pachorrento", causa incómodo ao leitor, pois este não percebe tais razões. Instala-se, então, um verdadeiro mal-estar, surgindo uma estranha sensação de que talvez o que está a ser contado não aparente, de facto, a realidade que aparecerá nas páginas seguintes. Assim, desde logo nos apercebemos que o narrador faz sentir e ver a densidade dramática e a crueldade a partir do próprio processo discursivo e narrativa que "disfarça" e camufla o drama.
Durante a leitura de Nós matámos o Cão Tinhoso somos perfeitamente embrenhados no que está a ser contado e partilhamos, completamente, o sofrimento daquele cão e do próprio menino - o narrador - com quem nos solidarizamos no facto de este ter sido o involuntário cúmplice da morte do animal que ele tanto amava. Uma "estória" cruel e absurda que se poderia sintetizar como a da execução de um inocente: o "Cão-Tinhoso".
O texto capta, continuamente, a atenção do leitor, chegando mesmo a prendê-lo de tal modo à ação, que não resiste a participar no conflito que tem pela frente.
Por força da metáfora, o leitor está, desde o início, solidário com o cão. A sua fragilidade senil, o corpo decadente e asqueroso não provoca repulsa. Aproxima-se dele, pela mão do narrador que o ama e a quem passa também a amar. Com os olhos de Ginho (o menino - narrador) vemos que "Tinhoso" é o escorraçado, o maltratado, o incompreendido e o injustiçado. Ginho conta a história daquele cão (meio gente, meio cão). O "Tinhoso" escorraçado e débil, metaforiza o negro e, descendo ao início da História, metaforiza toda a África no drama da sua colonização. Este cão-Tinhoso, que Ginho tanto amava e nele refletia o carinho por um irmão, morrerá e o próprio Ginho colabora nessa morte. Não o queria fazer, mas fá-lo. E é isso que ele aqui conta: confessa, como se estivesse em pleno tribunal, o crime que cometeu e revela o mais puro remorso. Assim, esta novela assume pleno carácter confessional. Intimista e tristonha, esta é a novela que revela ao leitor o discurso de uma criança envelhecida no sofrimento e amadurecida na dureza da experiência.
Esta poderá ser, de facto, uma das leituras possíveis desta fascinante novela: um menino que assiste e participa na morte de um quase irmão que aqui representa o estado do colonizado: débil, envelhecido pelo sofrimento contínuo a que foi sujeito, escorraçado, maltratado e repudiado por todos. Fraco e doente, é eliminado para que o seu estado não alastre, indo contaminar os outros. Prefigura, assim, o estado do colonizado oprimido, escorraçado e indesejado pela situação criada pelo colonizador. Mas, podemos também entender este texto pela visão contrária: como a situação colonial (em que o texto se contextualiza) é uma situação de conflito entre, pelo menos, dois conjuntos humanos (colonizado/colonizador), envolvendo todas as suas questões culturais, ideológicas, históricas, sociais e económicas, este texto apresenta-se, então, como um verdadeiro discurso de natureza política, uma vez que tem por fim agir sobre o leitor para, ao revelar-lhe as realidades precárias, levá-lo à reflexão e à crítica. Passando esta ideia para o plano da interpretação representativa das personagens de Nós matámos o Cão Tinhoso, pode ver-se que é possível elaborar um sistema de equivalências no qual o Cão-Tinhoso - feio, de pele velha, nojento, ossos a chiar de fragilidade - representa, assim, o sistema colonial, o colonizador decadente, em vias de ser destruído, abatido. De facto, o Cão-Tinhoso é abatido numa apoteose de tiros, do mesmo modo que se pretendia que Moçambique se purificasse, se libertasse pelo fogo das armas.
Nós matámos o Cão Tinhoso é um texto que questiona a situação de discriminação racial e de tudo o resto que lhe está inerente.
Conclui-se, assim, que a novela tem claras componentes político-ideológicas. Todavia, mais do que isso, desenha com nitidez uma problemática ética que, indo tocar as questões do bem e do mal, concentra em si mesma essas propostas políticas e ideológicas. Do lado do Mal tem-se a opressão, a violência e a injustiça, que pode, como já foi visto atrás, ser entendida como o lado onde se encontra o sacrifício do cão, metáfora de um povo, de um país inteiro, ou, na visão oposta, o lado onde se encontra o sistema colonial, decrépito, envelhecido e já sem forças para enfrentar uma nova força determinada a abatê-lo para nele erguer um Moçambique livre. Do lado do Bem, tem-se, independentemente da interpretação que se der ao lado do Mal, o narrador (que é uma personagem) que, mesmo tendo atuado criminosamente, soube-o e sofreu durante todo o tempo: tem consciência da dimensão do seu erro mas nunca quis participar no crime que, apesar de tudo, ajudou a cometer. Assim, Ginho assume o seu crime e vem até ao leitor confessar-se.
Texto espantoso, construído numa narrativa que embala e envolve até ao fim, Nós matámos o Cão Tinhoso marca, na década de 60, um dos maiores e mais extraordinários contributos para a afirmação da narrativa moçambicana.
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Como referenciar
Porto Editora – Nós matámos o cão tinhoso na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2022-07-01 15:33:06]. Disponível em

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