Livros & Autores

Baiôa sem data para morrer

Rui Couceiro

O Dicionário das Palavras Perdidas

O Crespos

Adolfo Luxúria Canibal

Bom português

puder ou poder?

ver mais

tras ou traz?

ver mais

a folha foi impressa ou imprimida?

ver mais

desfrutar ou disfrutar?

ver mais

caibo ou cabo?

ver mais

extrema ou estrema?

ver mais

brócolos ou bróculos?

ver mais

tempo (sociologia)

O tempo faz parte das preocupações de qualquer domínio das Ciências Sociais. Não é apenas atributo da História, ciência que dele intrinsecamente depende. A Sociologia é também dependente dele. Há tantos tempos diferentes quantas as diferentes sociedades. Como refere Elias: "Ces différences sont, sans aucune doute, socialment acquises. Elles sont caractéristiques de différences dans l'habitus social et donc dans la structure de personnalité d'hommes appartenant ces diverses sociétés". O tempo é, assim, relativizado, de acordo com a forma como cada indivíduo e cada sociedade vive e está organizada, com ritmos e interações específicas. Todos os indivíduos, ao longo do curso da sua existência, na passagem gradativa da condição de infância à de adolescência e, por sua vez, desta à condição de adultos, vão - na cultura e na sociedade em que estão inseridos - substituindo um tempo interiorizado, que é ditado pela consciência que vão adquirindo sobre as coisas, por um tempo que lhes passa a ser cada vez mais ditado por ritmos externos e sobre os quais não detêm qualquer tipo de controlo, antes pelo contrário. Se à criança é permitida uma quase liberdade no uso que faz do tempo, porque ela desconhece as regras pelas quais socialmente está estabelecida a convivência e os comportamentos sociais, o mesmo já não se pode dizer do adolescente, por exemplo, de 15 ou 16 anos, que tem de cumprir horários para ir à escola, às atividades desportivas e, mais do que isso, tem de coordenar os seus horários com os daqueles com quem contacta e aos quais está mais ou menos ligado e dependente; este processo agrava-se, naturalmente, na vida adulta, com a entrada no mundo de trabalho e, para a grande maioria das pessoas, com a constituição de família e o nascimento dos filhos. É neste sentido que a autonomia em relação ao tempo de que cada um dispõe se vai perdendo em função da idade e da socialização, que implica mais ou menos responsabilidades individuais. A explicação que damos para os indivíduos tem, naturalmente, correspondência com as sociedades. O cumprimento do tempo é, dada a necessidade que os horários institucionais e burocratizados impõem, absolutamente intransigente e conduz como que a uma permanente "corrida contra o tempo", consubstanciada em inúmeros atos quotidianos, como o de levantar às x horas para apanhar o transporte público ou o fugir à fila de automóveis na estrada supercongestionada em horas de ponta, porque se tem de chegar ao trabalho a tempo.
Para designar a forma como as sociedades complexas organizam o tempo, Hall utiliza as expressões de sistemas de tempo "policronos" e sistemas de tempo "monocronos". Os primeiros, que se identificam com os países mediterrâneos, correspondem a sociedades em que os indivíduos desenvolvem, simultaneamente, várias atividades ou relacionamentos; ao contrário dos segundos, onde há separação de atividades e relacionamentos, que estão organizadamente estruturados. Num sistema onde os indivíduos podem fazer várias coisas ao mesmo tempo e, por isso, ter relacionamentos múltiplos, a questão do uso e entendimento do tempo não se coloca da mesma forma como naquele em que os indivíduos estruturam e sincronizam atividades e relacionamentos. Se, no sistema de tempo "policrono", por exemplo, é possível misturar as relações familiares com as relações de trabalho de forma tendencialmente indistinta, porque o tempo diário para o desenvolvimento de funções não está rigidamente estabelecido e não está, de resto, preestabelecido, no sistema de tempo "monocrono" tudo é bem diferente: há um tempo quotidiano para o trabalho e um tempo quotidiano para as relações familiares. Qualquer dos sistemas são perceções que temos relativamente ao uso e noção dominantes do tempo, mas nenhum deles se manifesta de forma absoluta em qualquer sociedade, isto é, não há propriamente sociedades inteiramente "policronas", nem sociedades inteiramente "monocronas". Há, isso sim, dominância de um sistema sobre outro, consoante a sociedade a que nos reportemos e, bem assim, quanto aos espaços, que são claramente distintos - a vários níveis - num mesmo país, tanto mais que os usos e as conceções diferenciadas do tempo correspondem também a diferenças funcionais de género, a diferentes papéis que, em cada sociedade, correspondem a homens e a mulheres. Aos primeiros estão adscritas funções que se identificam mais com o sistema de tempo "monocrono" e às segundas funções que se identificam mais com o sistema de tempo "policrono". Desta forma, é de supor que um espaço em que domine um sistema de tempo "monocrono", o dito sistema de tempo "policrono" das mulheres, elas próprias - e cada vez mais - socialmente envolvidas, nomeadamente no mundo do trabalho, seja menor do que aquele de que dispõem as suas congéneres nas sociedades dominadas por sistemas de tempo "policronos".
Partilhar
Como referenciar
Porto Editora – tempo (sociologia) na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2022-08-11 18:43:37]. Disponível em

Livros & Autores

Baiôa sem data para morrer

Rui Couceiro

O Dicionário das Palavras Perdidas

O Crespos

Adolfo Luxúria Canibal

Bom português

puder ou poder?

ver mais

tras ou traz?

ver mais

a folha foi impressa ou imprimida?

ver mais

desfrutar ou disfrutar?

ver mais

caibo ou cabo?

ver mais

extrema ou estrema?

ver mais

brócolos ou bróculos?

ver mais