30 Anos de Poesia
30 Anos de Poesia, de 1995, reúne a quase totalidade da obra poética de Manuel Alegre, produzida entre 1965 e 1993: Praça da Canção (1965), O Canto e as Armas (1967), Um Barco para Ítaca (1971), Letras (1974), Coisa Amar (1976), Nova do Achamento (1979), Atlântico (1981), Babilónia (1983), Chegar Aqui (1984), Aicha Conticha (1984), Vésperas de Batalha (1989), Rua de Baixo (1990), Com que Pena (1992) e Sonetos do Obscuro Quê (1993).
As composições das duas primeiras obras, assumidas como grito de combate e de protesto, decoradas e cantadas por uma geração que as identificou com uma voz de resistência contra o regime, estão fortemente marcadas pela crença no poder de intervenção da palavra, por uma intenção de usar a poesia como arma, definindo-se o poeta como "guerrilheiro / que traz a tiracolo / uma espingarda carregada de poemas" (Praça da Canção). A denúncia das novas desordens do mundo e a procura obsessiva de um país perdido no tempo alimentam uma poesia do presente, que se contrapõe a qualquer expressão lírica da frustração, do desalento ou do absurdo, pulsando nela, pelo contrário, a força de quem recusa a sujeição num tempo permanentemente de batalhas: "Todo o poema é de rua. / Todo o tempo é de combate /. E nada sei da poesia de laboratório." («Canto do Poeta Desarmado» in O Canto e as Armas).
A indissociabilidade do ser poeta e ser português, enraízam a sua poesia num fundo cultural, literário e histórico comum, que cumpre a cada momento reatualizar na refundição dos seus textos, na evocação das suas figuras e mitos, como Camões, Pessoa, Alcácer Quibir, através de práticas de paráfrase, de empréstimo, de citação. Por esse motivo, a poesia transcende o tempo que a datou: resolvidas as circunstâncias históricas que provocaram a indagação histórica, a guerra e o exílio, a poesia parte para novos combates e espera uma nova libertação ("Não é possível o homem tão perdido // Alguém há de subir de novo a uma montanha / Alguém com doze tábuas e um sentido" (Babilónia), o poeta continua a questionar a portugalidade, a ser o "português errante", o exilado que "tem uma pátria que já foi / e a que não é", em busca de um "país que não há" ("O Primeiro Soneto do Português Errante", in Atlântico).
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