A África ""Medieval""

A história da África pré-colonial tem-se revelado rica e variada desde que os investigadores multiplicaram as fontes de investigação.
Os três espaços que irão aqui ser abordados são o Sudão histórico, centrado sobre a bacia do Níger, o atual Shaba (Congo) e o planalto rodesiano. Eles beneficiaram de condições favoráveis - recursos naturais, vias de comunicação - que permitiram a acumulação de riquezas e, consequentemente, a emergência de estados dos quais possuímos traços materiais.
Do século XI ao XVI, durante a Idade Média ocidental, as relações comerciais estabelecem-se entre o Sudão e o Norte de África. O ouro em pó - que servirá para alimentar as trocas entre a Europa e a Ásia - é principalmente extraído de três jazidas situadas na África ocidental. Ele é encaminhado, enquanto os portugueses não estão instalados nas costas, através do Sara. Este ouro é trocado por sal e produtos fabricados no Magrebe. Este tráfico intenso está na origem do aparecimento das cidades situadas ao longo das rotas das caravanas tais como Djenné ou Tombuctu, célebre pelos seus sábios muçulmanos. Árabes e Berberes frequentam estas cidades e expandem a religião islâmica. Um estado pode emergir quando um grupo determinado, normalmente da aristocracia, resolve controlar algumas minas de ouro (nunca todas as jazidas), o comércio do sal e as rotas comerciais. Esta aristocracia, rodeada de uma clientela numerosa, assegura o domínio sobre os outros grupos sociais, camponeses livres ou servos, artesãos, e às vezes comerciantes. Cada aldeia tinha que pagar tributo, símbolo da sua dependência. Estes impérios estendem-se sempre em longitude, evitando a direção do Sahel devido à seca e aos ataques nómadas.
O primeiro destes impérios foi o do Gana, que se desenvolve a partir do século VII. A sua riqueza provinha essencialmente das taxas cobradas no comércio. Não resiste contudo aos ataques dos nómadas vindos do Sara ocidental, em meados do século XI. O Gana histórico desenvolveu-se em pleno Sahel, na região habitada atualmente pelos Soninké, entre os rios Níger e Senegal. As tradições orais fazem remontar a sua origem ao século IV a. C., e os primeiros textos de origem árabe, datam do século VIII (Al-Fazari). O rei é chamado Kaya Magan (Rei do Ouro) e o reino Wagadu. Este foi fundado por Dinga, um antepassado mítico vindo do Sol Nascente, e que tinha nascido das alianças entre os chefes e os génios locais, desposando as suas filhas. Esta tradição, que explica a poligamia tradicional, legitimava o enraizamento da dinastia e deu origem ao aparecimento dos grandes clãs que governavam a região. A sucessão real era matrilinear, o filho da irmã do rei sucedia ao seu tio, e este era inumado com as suas armas, a sua comida, a sua bebida, e todos aqueles que o tinham servido em vida. O Gana suscita o interesse dos primeiros comerciantes muçulmanos, que evocam o "comércio mudo" praticado com as populações, e que se maravilham com este país onde o ouro brotava do solo "como cenouras". O rei Kaya Magan permitia aos comerciantes estabelecerem-se junto à sua capital, mas não podiam circular no país, salvo para se juntarem a Aoudaghost (Tegdaoust), a grande feitoria que eles tinham edificado no início da rota transariana para o Magrebe. O ouro do Gana favorecia o comércio de luxo (ouro por tecidos, armas, vidros, cerâmicas) com o mundo muçulmano e estimulava as trocas regionais. Os circuitos comerciais eram dominados pelos Berberes, que possuíam dromedários, os únicos animais que podiam transportar pesadas cargas nas regiões áridas. O crescimento económico suscita uma forte reação da parte dos Berberes nómadas (que contêm o movimento almorávida) que incendeiam Aoudaghost (1054), e lançam ataques destrutivos sobre o Gana, tomando a sua capital (1076). O Gana, que tinha dimensões territoriais e políticas de um império, não desaparece. Reduzido a um simples reino, ele cai a favor do seu sucessor, o Mali.
Os ataques almorávidas sobre o Gana provocam a derrocada deste Império em detrimento dos pequenos reinos que procuravam assegurar a hegemonia sobre a região. Segundo as tradições, Soumangourou, rei do Sosso, acolheu os animistas fazendo campanhas de conversão junto dos Almorávidas. Ele assegura a proeminência sobre o pequeno reino do Mali, no qual ele mata onze dos doze jovens príncipes, deixando somente o décimo segundo com vida, chamado Soundiata. Mas este último cumpriu proezas extraordinárias. Soundiata Keita (1230-1255), verdadeiro fundador do Império Mali, converteu-se ao Islão, revoltando-se contra Sosso e depois o Gana (1240), dominando outros pequenos reinos. Estas conquistas permitem-lhe aceder a terras auríferas que tinham feito a riqueza de Kaya Magan, o rei do Gana, de ter peso na rota trans-sariana, e, consequentemente, sobre a economia do mundo muçulmano. Ele toma o título de mansa (rei), cria uma administração e estrutura o seu reino e as populações. Adicionou ao comércio do ouro e do sal o controlo da navegação do Níger, que liga a zona de floresta aos arredores do deserto a este e a Gâmbia a oeste em direção ao oceano Atlântico. Soundiata cria cinco clãs destinados a manter um rigor religioso, os clãs dos artesãos para o trabalho de ferro, do ouro, do marfim e do couro, e quatro clãs de feiticeiros para cantar as suas explorações e transmiti-las às gerações futuras. As crónicas muçulmanas mencionam a passagem de Mansa Moussa (cerca 1312-1337) pelo Cairo, numa peregrinação a Meca, que deslumbrou as multidões com a sua generosidade. O soberano favorece a instalação de mercadores arabo-berberes, que controlavam o comércio através do Sara. As cidades sudanesas atraem os sábios marroquinos e egípcios. Mas novamente os nómadas desestabilizam o comércio e enfraquecem o Império, reduzido ao alto Níger no século XV, favorecendo a emergência de um novo reino em Gao, a este do delta interior do Níger.
O Império Songhai de Gao impõe-se nos séculos XV e XVI, quando diversos Estados lutam para tomar o controlo das rotas comerciais. No seu apogeu, sob Askia Mohammed (1492-1528), consegue dominar toda a zona sudanesa, do Senegal à bacia do Níger. A história deste reino é conhecida a partir do século XII pelos textos árabes de origem sudanesa. Em 1591, uma armada marroquina munida de armas de fogo abala o Império, levando ao seu declínio.
A sul de Zambeze, sobre o planalto delimitado por este rio e o Limpopo, vivem desde muito cedo populações de caçadores-recoletores. Existem provas de que entre 500 e 1000 a região produzia ferro e marfim. Os investigadores põem a hipótese de se ter iniciado um comércio embrionário desde o século VII, comércio fundado sobre a exportação de marfim, eventualmente de ouro em pó, trocas por pérolas e tecidos originários do oceano Índico. Em compensação, no século IX, a extração de ouro em pó para a exportação está comprovada. A exploração é bastante organizada nos séculos X e XI; é estreitamente controlada pelos chefes. Esta evolução permite a transformação dos espaços urbanos no Zimbabwe e mais a sul. No século XV, um estado fortemente centralizado mostra o seu poderio pelas muralhas monumentais de pedra, que não tinham utilidade militar mas eram símbolos de prestígio. O Zimbabwe perderia o seu prestígio no século XVI, sucedendo-lhe o Império "Monomotapa".
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