A Espanha de Filipe II (""Siglo de Oro"")

Foi durante os três reinados que tiveram lugar entre os anos de 1479 e 1598 que a Espanha atingiu o momento de auge em todos os sentidos, político, cultural e económico. Naturalmente que se destaca a figura de Filipe II, filho de Carlos V, que herda um vasto império constituído a partir dos Reis Católicos. Chega a ser governante do nosso país a partir de 1580, fruto dessa intenção de alargamento dos territórios. Nesta altura, Portugal já conseguira construir o seu próprio carácter, decorrente da expansão ultramarina. A união a Castela teve como imediata consequência a perda do império conquistado por Portugal. Saliente-se, no entanto, que o período de êxito de Espanha foi fugaz, embora se orgulhe de ter sido um dos países pioneiros na fundação de imensos impérios.

O grande desenvolvimento que culminaria no período de Filipe II já se vinha desenhando desde o reinado dos Reis Católicos com a união de Castela a Aragão e a conquista de Granada. Dois fatores fizeram o sucesso deste período: o alargamento do império com a descoberta do Novo Mundo, da responsabilidade de Colombo, e a expulsão dos Muçulmanos do Sul com a consequente unificação das províncias continentais. Esta última passou a constituir um dos problemas nunca resolvidos e que prejudicaram enormemente a coesão política interna, devido às más relações de vizinhança entre Aragão e Castela, compreendendo mal aquela a ingerência desta nas suas questões administrativas.
Em relação às questões de soberania, Carlos V foi o monarca que criou as bases definitivas para um Estado Absoluto que foi consolidado por Filipe II, que subiu ao trono em 1556. Não é de estranhar, pois, este último mostrou-se um homem extremamente tenaz e ambicioso, um verdadeiro burocrata e possuidor de uma enorme capacidade de trabalho. O legado que tornou visível essa preocupação desmesurada de centralização do poder absoluto consubstancia-se na construção do Convento-Palácio do Escorial, iniciada em 1557, tornando Madrid o centro do Império. A burocracia tentacular e a centralização revelaram-se no futuro perigosas, pois tornaram o sistema demasiado pesado, manifestando-se numa administração dispendiosa (acabou por deteriorar e sufocar o poder espanhol, conduzindo-o à ruína). Apesar dos problemas financeiros herdados de Carlos V, mas sempre ocultados pela ilusão do ouro, Filipe II perseverava na sua tentativa de manter o império. Deste ponto de vista compreende-se a batalha de Lepanto, contra os Turcos (1571), e a unificação ibérica (1580). Como homem católico, empenha-se na luta contra os Protestantes, pois um dos seus grandes sonhos era o domínio de uma Europa totalmente católica e livre de quaisquer ideias protestantes ou heréticas. Depois da febre conquistadora nos reinados dos Reis Católicos e de Carlos V, sob o ímpeto da sede do ouro e da vontade de evangelizar, Filipe II desenvolve a ocupação dos territórios do Sul da América, Chile e dos territórios do Rio da Prata. Fruto da união ibérica, teve a oportunidade de juntar ao já imenso império as possessões portuguesas do Extremo Oriente. Data do seu reinado a fundação de Manila, a descoberta das ilhas Salomão, Taiti, Marquesas e Novas Hébridas.
Apesar dos momentos de glória, já dois problemas se avizinhavam e que iriam conturbar o governo de Filipe II - a ameaça interna dos Países Baixos e a ameaça externa da Inglaterra. A primeira teve efeitos económicos imediatos e a segunda provocará, a longo prazo, o empobrecimento de Espanha. É neste contexto que surge a ideia da Invencível Armada como forma de acabar de vez com a rivalidade com a soberana inglesa, mas que se revelou ironicamente infrutífera e desastrosa, com a sua derrota e naufrágio, em 1588. Desta forma os países do Norte da Europa puderam alcançar melhores frutos do comércio marítimo e o desenvolvimento quer do protestantismo, quer do capitalismo faziam perigar a debilitada coesão do império espanhol.
A ideia de que o grande império espanhol era frágil sempre foi menosprezada durante o reinado de Filipe II e após a sua morte em 1598, altura em que se agrava a crise. A historiografia costuma apontar diversas causas da decadência do império que, naturalmente, atuaram em conjunto e não solitariamente. Entre muitas, pode salientar-se a já referida inconsistente unificação do país, agravada pela perda do território português em 1640 e a sublevação da Catalunha; a quase inexistência de produção industrial ou agrícola; a consequente dependência do estrangeiro; o grande número de parasitas; a queda demográfica agravada pela peste de 1600; a inflação que permitiu a circulação de uma má moeda nos circuitos monetários; o sentido do capitalismo na aplicação da riqueza que chegava das Índias não se verificou, pois a Espanha ainda estava muito arreigada a métodos e hábitos feudais; os reis que se seguiram (Filipe III, Filipe IV e Carlos II) não promoveram uma governação capaz e a corte vivia infestada de intriguistas e de conselheiros sem grandes capacidades; as perdas das praças flamengas, da Sardenha, do Rossilhão, dos Países Baixos, do Luxemburgo e das possessões italianas.
Se durante o reinado de Filipe II a economia e a política passavam já por dificuldades evidentes, o mesmo não se verificou relativamente à atividade cultural, que dará verdadeiro significado ao Siglo de Oro e que ainda se prolongará quando nada mais resulta.
Como ocorreu com a economia, o século XV preparou a época áurea cujas manifestações mais interessantes ocorreram na literatura, na língua e na arte que se denominou plateresca. Foi muito importante a ação de largo alcance levada a cabo por Isabel, a Católica, quando chamou à sua corte altas figuras do mundo cultural europeu, promoveu a importação de livros e fez desenvolver a Universidade de Salamanca. Aqui a Reforma católica foi empreendida por espíritos de grande nível. A cultura que se desenvolveu neste período e no subsequente, protagonizado por Carlos V, soube muito bem conjugar as novidades humanistas trazidas de fora com as características próprias da nação. Assim tornou-se num movimento coletivo que convocava o contributo de cada um e não apenas de um punhado de homens ilustres.
O Siglo de Oro filipino legou-nos peças notáveis do alcance da reflexão mística cujos maiores representantes são Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. A mística e todo o ambiente reformista que se vivia teve uma excelente síntese no campo da arte com o maneirista El Greco, plasmado numa das suas obras maiores, O Enterro do Conde de Orgaz, patente na Catedral de Toledo, na Capela de S. Tomé. É este artista que encarna o Siglo de Oro em toda a sua dimensão. Caminhará posteriormente com Murillo e Velázquez, este último um dos sintetizadores das tradições nacionais com as novidades intelectuais e místicas, mas que nos dá a imagem de uma Espanha já à beira da decadência. Na escultura far-se-á representar com os trabalhos de madeira policromada de Berruguete e dos seus discípulos de um barroquismo acentuado pela emoção. Mas não é só na mística e na arte que encontramos expressões do Siglo de Oro, elas manifestaram-se igualmente na atividade de técnicos, médicos, astrónomos, botânicos, filólogos (Nebrija), economistas, historiadores, doutrinários e teólogos (Suaréz e Molina) e escritores (Quevedo, Calderon, Góngora, Cervantes).
Assim, a decadência referida não prejudicou a atividade cultural que se mantém brilhante. Mesmo já se sabendo que o Siglo de Oro tem os seus dias a chegar ao fim, ainda é capaz de influenciar o Grand Siècle francês.
Como referenciar: A Espanha de Filipe II (""Siglo de Oro"") in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-08-14 18:19:34]. Disponível na Internet: