A Viagem
Escrita por João Palma-Ferreira e publicada em 1971, a obra assume a temática da viagem como mote para uma multiplicidade de discursos que desenvolverão até ao infinito todas as modalidades possíveis da viagem: desde a identificação do narrador com um homo viator, que errando pela cidade se prepara para a partida; à conotação histórica-portuguesa da viagem enquanto reflexão sobre o devir de um país marcado pelas viagens da navegação e da emigração ("António que procuras o pão onde o não há e que o irás buscar fora deste mundo magro e confuso"); à viagem enquanto ausência de caminho no homem perdido numa cidade perdida; à viagem-labirinto através dos enigmas que o homem tenta decifrar; à viagem enquanto hipótese religiosa de transmigração ou do perpetuar da viagem na eternidade; aos mitos da viagem, como Sinbad. Paradoxalmente, a viagem, no seu ponto de partida, é o ponto de chegada do homem pós-moderno, no limiar da morte, que depois de um penoso trabalho de sapa, se situa num "momento de saturação da verdade, essa mesma que vai ser culpada de um grande silêncio". Ao longo de múltiplas narrativas, construídas quer na primeira pessoa do singular ou do plural, quer na terceira pessoa, e tendendo para a máxima diluição das categorias ficcionais tradicionais, a aventura primeira de A Viagem é a da escrita como itinerário de reconstrução de um sentido para uma existência, mesmo se o primeiro dia do registo da viagem no interior é o último dia dessa escrita, rito de transição necessário na passagem da vida para a morte: "António, porque partes?, porque transformas o início de uma simples viagem num sucesso de palavras?"
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A Viagem na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.ptartigos/$a-viagem [visualizado em 2026-07-18 16:45:14].
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