anástrofe

Figura de estilo em que se manifesta uma inversão sintática de palavras ou sintagmas. Na anástrofe (do grego, anastrophé, que significa "mudança de posição", "inversão") verifica-se, assim, uma inversão da ordem normal de elementos próximos na frase, frequentemente traduzida na antecipação de um complemento dependente quer de um verbo, de um nome ou de um adjetivo. É também uma estratégia retórica que visa provocar um efeito de surpresa na construção frásica, apesar de frequentemente, à semelhança do hipérbato, ser uma consequência das exigências da métrica do verso, como na seguinte estrofe de Pessoa:
"Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste -
Assim se Portugal formou."
(Fernando Pessoa, Mensagem, "Os castelos", Viriato)
Neste exemplo uma clara exigência de versificação terá motivado a antecipação da palavra Portugal (a ordem esperada seria Assim se formou Portugal).
"À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
"Que farei eu com esta espada?"
(Fernando Pessoa, Mensagem, "Os castelos", O conde D. Henrique)
Neste exemplo, vemos uma dupla antecipação. Primeiramente, do complemento proposicional dependente de descer, cuja ordem normal seria: "Teu olhar desce à espada em tuas mãos achada". Além disso, o complemento proposicional (em tuas mãos) subordinado a achada também é antecipado. Assim, a ordem normal seria outra: "à espada achada em tuas mãos".
"Se a alma que sente e faz conhece
porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu."
(Fernando Pessoa, Mensagem, "Os castelos", Viriato)
Nesta estrofe de Pessoa, houve novamente dupla antecipação: de instinto em relação ao possessivo teu e de em nós, que deve ser o último complemento da frase. A ordem direta esperada nos últimos dois versos seria então: "porque houvesse memória do teu instinto em nós".
Como referenciar: anástrofe in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2021. [consult. 2021-01-26 19:37:15]. Disponível na Internet: