Anselm Kiefer

Anselm Kiefer nasceu a 8 de março de 1945, menos de dois meses antes do suicídio de Adolf Hitler. Como artista, Kiefer está envolvido num profundo diálogo com a sua herança. Os seus trabalhos exploram a interseção da recente história alemã e as experiências individuais do artista. Os mitos e realidades da recente história nazi vêm ao encontro da iconografia pessoal, em trabalhos de grande emotividade que esborratam a linha entre o simbólico e o real.
Kiefer estudou Direito e Línguas Românicas antes de iniciar os seus estudos na pintura, em Dusseldórfia, com Joseph Beuys. Em 1969 ganhou notoriedade com Occupations, uma série de fotografias que mostravam o artista fazendo a saudação nazi em locais simbólicos de França, Itália e Suíça. Eram fotografias de grande dimensão sobre as quais aplicou palha e areia.
A catástrofe nazi é o seu tema obsessivo. A perversão de Hitler da nação e cultura alemãs é a sombra oculta que por vezes apenas se esconde no fundo da arte de Kiefer, mas na maior parte das vezes escurece toda a superfície. Sombria, acusadora, escarnecedora, enigmática - a visão de Kiefer sobre a vida, a religião, a ideologia, a identidade nacional e a história foi reduzida a carvão pelas chamas do Holocausto. Muitas das suas pinturas mais recentes parecem ter sido trabalhadas, como acabamento, com um maçarico. Uma das suas técnicas favoritas é derramar chumbo líquido, de maneira a formar uma bolha, na tela já de si feita em cinzas, aumentando a sugestão da incineração. Nos seus trabalhos, por exemplo, aparecem frequentemente imagens de banheiras de zinco com funções diversas: por vezes como um crisol de sangue, por vezes como representação do canal de Inglaterra (e a tentativa falhada dos alemães para o atravessar na Segunda Guerra Mundial). Num outro trabalho Kiefer usa uma fotografia de uma banheira aparentemente cheia de uma água calma e transparente em cuja superfície o próprio artista aparece fazendo a saudação nazi. A ironia desta alusão é compreensível se soubermos que na décadas de 1930 e 1940 o Partido Nazi distribuiu este tipo de banheiras a todos os alemães para "assegurar as condições mínimas de higiene"; ou que uma anedota corrente durante o período nazi era a de que Hitler andava sobre a água porque não sabia nadar. Mas este conhecimento não é necessário para que o observador seja atingido pela força mordaz da utilização que Kiefer faz desta imagem da banheira.
A qualidade emotiva do seu trabalho deriva das texturas únicas das suas pinturas; ele aplica a tinta densamente, cobrindo, depois, as telas com materiais orgânicos como terra, areia, palha, sementes e cabelo. Estas incrustações densas fecham o espaço entre a tela e o observador, e a experiência visual transforma-se em algo íntimo.
Durante a década de 1980 os temas de Kiefer alargaram-se de uma focagem no papel desempenhado pela Alemanha na civilização para o destino da arte e cultura em geral. O seu trabalho tornou-se mais escultural e envolve não só a identidade nacional e a memória coletiva, mas também o simbolismo oculto, teologia e misticismo. O tema que decorre em todo o seu trabalho é o trauma experienciado por sociedades inteiras, e o seu incessante renascimento na vida.
Os seus trabalhos mais recentes incluem escultura como, por exemplo, aviões de caça construídos em placas de chumbo, e instalações.
Como referenciar: Anselm Kiefer in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-05-26 09:56:52]. Disponível na Internet: