Antiga Sé de Silves

Nascida no final do domínio romano em Portugal, a diocese algarvia sofreria um interregno de dois séculos com as invasões bárbaras, sendo restaurada no século VI pelos convertidos Visigodos. A partir de 711, são os Árabes a ditarem as suas leis ao longo de 500 anos. Nessa altura, os homens do Islão ergueram em Silves uma das mais importantes mesquitas no território de Portugal.
No ano de 1189, Silves é conquistada por D. Sancho I e a antiga diocese de Ossónoba volta a ser restaurada, optando este monarca pela fundação da nova Sé Catedral no lugar da anterior mesquita de Silves.
Contudo, a cidade volta a cair, dois anos mais tarde, em poder das forças islâmicas. Somente em 1249 é que D. Afonso III liberta, definitivamente, Silves e a totalidade do Algarve do domínio muçulmano. 1268 é a data que assinala o ressurgir da Sé Episcopal de Silves. Contudo, o plano deste templo não sobreviveu à ruína e ao catastrófico terramoto trecentista que abalou esta cidade algarvia. Dos seus escombros foi erguida uma outra para, em meados do século XV, esta vir a ruir por inteiro. D. Afonso V iria, ao longo da segunda metade do século XV, patrocinar a sua reedificação e ampliação. A volumetria e estética do gótico do século XV ainda subsiste na imensa mole desta antiga catedral, embora os subsequentes terramotos - três catástrofes ocorridas, respetivamente, em 1719, 1722 e 1755 - tenham alterado substancialmente a sua gramática construtiva quatrocentista.
Outra calamitosa situação iria abalar a diocese de Silves. O caso ocorreu no século XVI, numa época em que esta cidade algarvia estava depauperada economicamente, a sua população diminuíra e as condições de saúde pública se revelavam precárias. Em consequência desta situação, a Igreja optou pela transferência da catedral e da diocese para Faro, embora o polémico processo se tivesse arrastado por 38 anos e só viesse a concretizar-se em 1577.
Despromovida, a antiga Sé de Silves foi reconvertida em Igreja Matriz e consagrada a Santa Maria.
Recorrendo à pedra local - o grés avermelhado - e combinando com a elegância do gótico batalhino, o exterior da antiga catedral de Silves conserva uma indesmentível e sóbria elegância. O gótico ogival enforma a porta principal, composta por cinco arquivoltas assentes em capitelizadas colunas e colunelos. Ladeiam-na dois elevados e poderosos contrafortes, rematados por pináculos cogulhados, acedendo-se ao portal por um desnível transposto por escadaria em dez degraus. Sobre o portal corre uma esculpida cornija modilhonada. A alvura da cal é rasgada por óculo moldurado e sem rosácea, flanqueando a fachada duas torres sineiras setecentistas.
Na fachada sul sobressai um portal barroco mistilíneo, obra do século XVIII. O transepto apresenta um corpo avançado e rasgado por janelões góticos de dois lumes. A esbelta cabeceira, integralmente revestida a grés, é tripartida e integra geminados janelões ogivais. A abside é reforçada por contrafortes chanfrados, correndo no seu topo uma cachorrada com gárgulas esculpidas.
Interiormente, a igreja apresenta uma planta em cruz latina, com o corpo repartido em três naves de quatro tramos com cobertura de madeira, sustentada por arcaria ogival assente em poderosos pilares oitavados e capitelizados. Na parte lateral do corpo da igreja são visíveis capelas barrocas setecentistas, decoradas por exuberantes composições em talha dourada.
Os braços do transepto são cobertos por abóbadas de berço, enquanto a zona central do cruzeiro apresenta abóbada ogival com ornamentado fecho.
A cabeceira tripartida é coberta por abóbadas pétreas: a abside e o absidíolo norte apresentam abóbadas de cruzaria ogival, reforçadas por arcos torais e cadeias na união dos decorados fechos da abóbada. O absidíolo sul é coberto por abóbada de berço quebrado, sustentado por arco toral complementar.
Realce para a Capela do Santíssimo Sacramento, decorada pela setecentista talha dourada barroca e realçada pelos panos parietais de azulejos barrocos, em tons de azul e branco.
Profusamente iluminada pelos três janelões ogivais geminados, a capela-mor ostenta uma lápide alusiva ao facto de os restos mortais de D. João II terem aqui repousado durante 74 anos, altura em que foram trasladados para o Panteão Real do Mosteiro da Batalha.
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