Arlindo

Integrado numa coletânea onde todas as narrativas exemplificam o modo como a conduta dos homens é regida de forma inexorável pelas normas ancestrais enraizadas no universo natural e humano das populações que habitam o espaço da montanha, o conto "A Paga" apresenta-se como modelo da aplicação de uma justiça e reposição de uma lei moral que se mantém inalterável e indiferente à evolução dos códigos civilizacionais. O conto tem como protagonista Arlindo, um Don Juan de Vale de Mendiz, "manhosão" de "falas doces" que cometeu o erro de seduzir Matilde, "o ai Jesus de Litém" e cuja "paga" por tal façanha será, num ajuste de contas levado a cabo pelos irmãos da jovem, a castração. O início do conto acentua o modo como Arlindo surge como um infrator consciente e incorrigível de códigos morais, cumulando, ao longo do seu desenvolvimento, indícios de que o carácter excessivo da sua conduta teria inevitavelmente que ser anulado para que se restabelecesse um equilíbrio posto em causa com a sua afronta. Assim, a castração de Arlindo "representa apenas o preço justo exigido àquele que se atreveu a subverter uma certa moral: não a que se vincula a códigos impostos artificialmente, mas antes a que obedece a leis constantes e intrínsecas ao universo em que se encontram vigentes." (REIS, Carlos - Técnicas de Análise Textual, 3.ª ed., Coimbra, Almedina, 1981, p. 332.)
Como referenciar: Arlindo in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-09-17 21:37:50]. Disponível na Internet: