Arlindo Fagundes

Realizador de cinema, ceramista, ilustrador e autor de banda desenhada, Arlindo Terra Fagundes nasceu a 3 de julho de 1945, em Ovar.
A sua vasta formação inclui a passagem pela Sociedade Nacional de Belas - Artes, onde frequentou o curso de Desenho e Pintura, a Escola Superior de Belas - Artes de Lisboa (ESBAL - atualmente Faculdade), onde foi aluno de Pintura, para além do Conservatoire Libre de Cinéma Français, diplomando-se como realizador de Cinema em 1973, durante o seu exílio em França (1967-1974), tendo aderido ao PCP (Partido Comunista Português) em 1968.
Regressado a Portugal após a queda do Estado Novo, em 1975, inicia a atividade de ceramista com rara mestria, criando uma galeria de papudos bonecos, de expressão nacional e regional. Estes bonecos muito diversificados incluem: o juiz, o polícia de choque, o estudante de Coimbra, o "tuno" do Minho, o escuteiro, o bispo "brasileiro", o arcebispo, o padre, a freira, a sopeira, o árbitro, equipas completas de futebol de vários clubes, o jogador de rugby ou o famoso presépio. Para além destas personagens, outras existem, fruto de encomendas exclusivas, como o Fernando Pessoa para a Universidade homónima, os homens de negócios para a Associação Industrial do Minho, os troféus do FITU Bracara Augusta (Festival Internacional de Tunas Universitárias, que se realiza todos os anos em Braga) ou o Rui Lages, para o antigo corredor de automóveis bracarense. Naturalmente, tem participado nas mais diversas feiras de artesanato do país, tendo como base de trabalho a sua oficina de cerâmica, a Ágata, localizada em Prado - Santa Maria, concelho de Vila Verde, distrito de Braga. Ainda ao nível da cerâmica, a experiência acumulada por Arlindo Fagundes permitiu-lhe conceber o Manual Prático de Introdução à Cerâmica (Editorial Caminho, 1997), livro fundamental para o conhecimento desta Arte.
O seu trabalho na área da Cerâmica foi distinguido com o 1.º Grande Prémio de Design Artesanal da Bienal de Arte de Vila Nova de Cerveira, em 1987.
Antes de se instalar em Braga, onde vive desde 1984, esteve ainda em Lisboa, tendo trabalhado para a RTP (Porto) como realizador de vários trabalhos (documentários e outras peças).
Como caricaturista, colaborou nos jornais regionais Correio do Minho (diário), Minho (semanário) e A Patada, todos de Braga, para além do República (diário), Sempre Fixe, O Norte Popular (do Porto) e A Alavanca, jornal da Intersindical, com a particularidade de neste último ter realizado uma série de tiras de BD.
As ilustrações que realiza para a Coleção "Uma Aventura", destinada a um público entre os 8 e os 13 anos, com textos de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, corresponde ao seu trabalho mais conhecido. A coleção tem 45 títulos editados e, ao fim de mais de 20 anos de existência, continua a conquistar novas gerações de leitores, tendo a tiragem global desta série ultrapassado os seis milhões de exemplares. Estreada em 1982, com "Uma Aventura na Cidade", a coleção foi inicialmente rejeitada por algumas editoras. Cerca de 15 anos depois, quatro dos seus episódios foram adaptados para a televisão (pela SIC), também disponíveis em vídeo. Os protagonistas são as gémeas Teresa e Luísa, os rapazes, Pedro, João e Chico e os dois cães Caracol e Faial, com cada episódio a desenrolar-se num espaço próprio, dando a conhecer diferentes realidades e áreas de Portugal ou de outros países, como os próprios títulos sugerem: Uma Aventura no Teatro, Uma Aventura nos Açores, Uma Aventura no Porto, Uma Aventura na Praia, Uma Aventura na Escola, Uma Aventura na Quinta das Lágrimas, Uma Aventura no Egito...
Para as mesmas autoras e para a mesma editora, tem ilustrado também a Coleção "Viagens no Tempo", iniciada em 1985, com Uma Viagem ao Tempo dos Castelos (contando com 14 títulos editados) e a Coleção "Asa Delta", iniciada em 1987 com O Tapete Mágico (com 3 títulos no total).
Ainda ao nível da Ilustração, para além dos trabalhos feitos à mão, também tem outros em computador, como é o caso de Conhece os Teus Direitos - Os Direitos da Criança, realizado em 1998 para o Governo Civil de Braga e Instituto de Estudos da Criança da Universidade do Minho, sob um texto adaptado da Convenção Sobre os Direitos das Crianças por Paula Cristina Martins e Sara Pereira, sem esquecer a ilustração para manuais escolares.
Como docente, lecionou nos cursos de Técnicos de Comunicação e Técnicos Multimédia, na Escola Profissional de Braga, tendo chegado a lecionar Fotografia na Escola Calouste Gulbenkian e sido responsável por formação profissional.
Na banda desenhada, Arlindo Fagundes tem feito as aventuras de Pitanga, barbeiro ao domicílio, um pouco ao estilo de Corto Maltese, personagem de Hugo Pratt que muito aprecia. Pitanga, que usa um quase interminável cachecol com bolas pretas, que vive com Arnaldo, o seu braço direito que, embora cego, vê muita coisa em que outros não reparam, sendo um pouco destravado a falar. A sua banda desenhada evidencia um estilo e consistência narrativa muito originais, com predominância de um humor muito pessoal, aliado ao seu habitual e vigoroso traço negro.
Embora reduzido em relação ao conjunto da sua obra, o seu trabalho na banda desenhada corresponde a um estilo único, testemunho das vivências de gente comum, em cenários de localização algo incerta, na região Norte e na vizinha Galiza, com La Chavalita (1985), o seu título inaugural, a corresponder a um testemunho livre do submundo destas regiões trans fronteiriças. Neste título, inaugural surge António Variações, cantor muito em voga na época e que, como Pitanga, também exerceu a profissão de barbeiro. Contactado durante a realização desta história, Variações morreu antes de a poder ver.
La Chavalita é uma história negra, com o autor a avisar logo no início que muita gente vai morrer, o que não invalida que o humor esteja sempre presente.
Pitanga desloca-se na sua inseparável moto. Quando a conduz, Fagundes consegue criar um curioso jogo visual protagonizado pelo quase interminável cachecol e a velocidade vertiginosa em que se desenrolam partes desta trama, que preenche um álbum de 58 páginas.
Esta história foi pré-publicada no extinto jornal O Diário, entre 1 de fevereiro e 5 de abril de 1985, ano que marcou a sua mais intensa produção de BD, pois também colaborou com BêDêzine (capa) e O Mosquito (V série, n.º 11, dezembro de 1985). Neste último, surgiu "Pitanga e os animais", curta história de 7 páginas. La Chavalita teve ainda uma versão a cores, publicada no Jornal da BD em 1986 (n.º 201, de 10 de junho).
Só em 1996 é que voltou a apresentar BD, assinando o argumento de "Quem vem e atravessa o rio...", um episódio de Pitanga passado no Porto, em 10 páginas desenhadas por Pedro Sousa Dias, sob um argumento de Arlindo Fagundes feito em 1991, que foi publicada na revista Quadrado (n.º 3, II série, outubro de 1996), da Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto (ASIBDP). Esteve para ser publicada na revista LX Comics, mas como, entretanto, terminou, ficou a aguardar a sua oportunidade.
Parabéns a Você, que surgiu num pequeno formato, constituiu o primeiro título da Coleção "Quadradinho", serviu para quebrar o excessivo intervalo de tempo que se verificava desde a edição do seu anterior livro, correspondendo a um convite da ASIBDP, que apresentou uma coleção em pequeno formato, privilegiando os autores portugueses no conjunto dos seus dezoito títulos. Com outros autores desta coleção, participou numa exposição coletiva patente na nona edição do Salão do Porto, em 1997.
A Rapariga do Poço da Morte é uma longa história que tem como tema de fundo o milho transgénico, que teve direito à edição em álbum (lançado em 2003), correspondendo a uma aventura em pleno, no melhor estilo de La Chavalita, marcando o reencontro deste barbeiro de luxo com o falecido cantor António Variações, que já tinha "participado" no título inaugural. Das suas 53 páginas, as primeiras, entretanto redesenhadas, estiveram presentes na quinta edição do Salão do Porto, em 1989, na exposição coletiva "BD Portuguesa Hoje".
O esmero posto na execução deste novo título, premiado com o troféu "Zé Pacóvio e Grilinho" para o Melhor Argumento no Festival da Amadora, em 2003, incluiu a construção de uma maqueta de um poço da morte, feita pelo próprio autor, que constitui uma das maiores atrações das feiras e divertimentos itinerantes.
A apresentação de A Rapariga do Poço da Morte decorreu na Bedeteca de Lisboa em 23 de abril de 2003 (data em que se celebra o Dia Mundial do Livro e o aniversário da própria Bedeteca) e coincidiu com a inauguração da exposição "A Navalha de Pitanga", com os originais das diferentes aventuras de Pitanga.
As suas influências do cinema nos planos são óbvias e naturais, dada a sua formação.
A propósito do seu trabalho na BD, o conceituado ilustrador Jorge Colombo escreveu em 1985 (no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias), a propósito do lançamento de La Chavalita, que "Na melhor tradição da BD popular, Arlindo Fagundes afirma-se, até posteriores estudos, como um deficiente desenhador tout court - e como um ótimo desenhador de BD".
Em 1998, participou na primeira mostra da Ilustração Portuguesa, com No Coração da África Misteriosa, outro exemplo de ilustração para a Caminho, num livro da autoria da dupla Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, um dos títulos da Coleção "Viagens no Tempo" (14 títulos).
A sua paixão pela Pintura já motivou a realização de algumas exposições, individuais e coletivas, em Braga, Fafe, Lisboa, entre outras localidades.
Como referenciar: Arlindo Fagundes in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-01-20 20:51:28]. Disponível na Internet: