Armadas do Brasil

A partir de 1515 Portugal passou a tomar medidas específicas para com o Brasil, para se prevenir contra as incursões de corsários e piratas do Noroeste europeu e contra a cobiça dos espanhóis. O rei D. Manuel I mandou estabelecer as Capitanias do Mar, e estipulou que, de dois em dois anos, uma armada fizesse uma viagem de patrulhamento para defender a orla costeira do Brasil, a primeira das quais operou nas costas brasileiras entre junho de 1516 e maio de 1519. Esta primeira armada foi chefiada por Cristóvão Jacques, chamado de novo em 1526, já em pleno reinado de D. João III, para continuar a desempenhar este cargo.
A intensificação da ofensiva francesa na segunda metade do século XVI, o crescente assédio dos corsários ingleses no fim do século e o fim das hostilidades entre a Inglaterra e as Províncias Unidas obrigaram a uma ação de policiamento mais atuante, sobretudo na centúria seguinte.
A primeira vaga de armadas era composta por caravelas, um tipo de embarcação que continuou a ser usada mesmo depois de o desenvolvimento da guerra exigir barcos mais eficazes. Entre os navios de menor porte encontravam-se também as fustas, os patachos, as fragatas, as galeotas e galeáceas, as corvetas, os bergantins e as sumacas. Entre os navios de maior envergadura eram usadas as naus e os galeões. Estes barcos eram construídos nos estaleiros nacionais e, a partir do século XVII, também se tentaram produzir barcos no Brasil. Com a Restauração, foi largamente desenvolvida essa atividade nesse território colonial. No entanto, apenas no século XVIII as embarcações brasileiras virão a ter comparação com as portuguesas.
A tonelagem destes barcos era muito incerta, mas poder-se-á dizer que aumentou a partir do final do século XVI. As fustas, normalmente, tinham quatro peças de armamento, as fragatas tinham dez, as naus passaram, em 1604, a ter dez peças, as carracas cerca de 30 e os galeões entre 20 e 28.
Estas armadas eram comandadas pelo almirante e o capitão-mor do mar, que chefiavam os marinheiros e soldados, cujo número variava em função da tonelagem das embarcações. Nos começos de Seiscentos, os marinheiros eram recrutados a título temporário e os homens de guerra eram escolhidos entre os soldados experientes, nomeadamente nas guerras da África. Mas, com o tempo, foram surgindo problemas na contratação de homens para os navios da armada, como se depreende de um perdão concedido pela Coroa portuguesa em 1631 a todos os presos, por delitos leves, que pretendessem integrar as tripulações dos barcos. Com o agravamento desta falta de homens, Filipe IV (III de Portugal) teve de recorrer às nações obedientes a Espanha bem como aos Açores e à Madeira.
Os homens recrutados desta nova forma apresentavam deficiências, pois não tinham qualquer formação específica, o que os colocava em plano de inferioridade, relativamente aos seus diretos adversários. Para tentar pôr cobro a esta situação, foi instituído, em 1618, o Terço da Armada da Coroa de Portugal, isto é, um terço da infantaria permanentemente na armada, que veio a ter um importante papel na reconquista do Brasil na sequência da Restauração em 1640.
A armada foi alvo de atenção especial, durante o domínio filipino. Neste período, a Coroa espanhola chegou a colaborar na sua aparelhagem. Contudo, este contributo era visto com certa apreensão pela administração portuguesa e pelos armadores nacionais, que não viam motivações altruístas nesta ajuda concedida a Portugal.
Uma estreita colaboração entre Portugal e Espanha veio a acontecer em 1624, quando os holandeses conquistaram a Baía. Era urgente a combinação de esforços para defender o Brasil de uma ameaça externa. Nesta operação, participou pela primeira vez o Terço da Armada. Depois da desastrosa atuação da esquadra de D. Manuel de Meneses, em 1627, a participação portuguesa nesta empresa diminuiu. Em 1635 foi formada uma nova armada, que culminou com o desastre de Porto Calvo.
O último ato conjunto para a defesa do Brasil, datado de 1639, foi protagonizado pela armada comandada por D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, que lutava pela recuperação de Pernambuco. O insucesso desta armada abateu ainda mais o já fraco poderio naval português.
Depois da Restauração, D. João IV foi forçado a restabelecer e fortalecer a esquadra. Em 1646, estava a ser preparado o envio de uma frota para defesa do Brasil, comandada por D. António de Meneses, conde de Vila Pouca e governador do Brasil, que conseguiu repelir a nova investida dos holandeses sobre a Baía.
Em 1649, a armada real passou a contar com o auxílio da armada da Companhia Geral do Comércio do Estado do Brasil, que teve uma decisiva influência na expulsão definitiva dos holandeses em 1654.
Na segunda metade do século XVII foi-se apagando a atividade das armadas, e no início do século XVIII, com a extinção da Companhia Geral do Comércio, às armadas é confiada a tarefa de comboiar as frotas do Brasil e de trazer o ouro e os diamantes. Porém, em 1710, uma armada comandada por Gaspar da Costa Ataíde envolveu-se numa operação militar exigida pela defesa do Rio de Janeiro, ameaçada pelos franceses. No entanto, a atividade das armadas do Brasil foi, para sempre, comprometida a partir do momento em que foi decretada a livre navegação (1765) e foram abolidas as frotas e esquadras do Brasil.
Como referenciar: Armadas do Brasil in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-09-24 19:56:41]. Disponível na Internet: