As Boas Intenções

Obra publicada em 1963 que confirmaria o nome de Augusto Abelaira como um dos grandes romancistas contemporâneos, tendo sido distinguida com o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências. Nas palavras de agradecimento ao júri que lhe atribuiu este prémio, Abelaira reflete sobre a possibilidade de aplicar as fórmulas da novelística oitocentista em obras posteriores à Segunda Guerra, interrogando-se se tais fórmulas seriam ainda capazes de "espevitar o espírito criador, de o empurrar para a frente, de o ajudar a exprimir a individual experiência do romancista", no seu cruzamento com a experiência coletiva e com a comunicação uma "imagem de desespero". Num jogo de palavras com uma conhecida citação de Eça, segundo a qual o autor de O Primo Bazílio afirmava que conhecia os processo mas faltavam-lhe as teses, Abelaira inverte a expressão, para considerar que a situação do romancista contemporâneo seria a inversa: parecendo-lhe que este teria "as teses (ou, pelo menos, os sentimentos)", mas faltavam-lhe "os processos, as fórmulas, os instrumentos dúcteis que [...] permitam avaliar uma sociedade portuguesa que em muitos aspetos continua ser [...] a mesma d' Os Maias". Quanto ao romance As Boas Intenções, a abordagem sumária que lhe consagra toca um dos aspetos essenciais no que diz respeito à utilização de um "tempo de convergência" (cf. SEIXO, Maria Alzira - "Augusto Abelaira: um tempo de convergência", in Para Um Estudo da Expressão do Tempo no Romance Contemporâneo, 2.ª ed., Lisboa, 1987), em termos de nova "fórmula", muito característica, aliás, da técnica narrativa de Abelaira, que atribui a esta forma de expressão do tempo um alcance ético: "Estas Boas Intenções que aí ficam são simplesmente uma tentativa (e malograda) para traduzir, numa linguagem que não seja exatamente a de Eça, um exame de consciência de quem sabe, ou julga saber, que hoje não vivemos apenas num presente mais ou menos determinado pelo passado, vivemos também num presente fecundado pelo futuro - um futuro que, condicionado pelos nossos gestos, ao mesmo tempo que os condiciona, dessa forma se identifica com o presente, se inscreve nele. Uma tentativa, em suma, para traduzir, numa linguagem adequada, um mundo cuja transformação está nas nossas mãos (...)." (Cf. Palavras proferidas por Augusto Abelaira aquando da atribuição do prémio Ricardo Malheiros, in 2.ª ed. de As Boas Intenções, Amadora, Bertrand, s/d).
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