As Evidências

Volume de poesia de Jorge de Sena, publicado em 1955, saudado, no momento da sua aparição, por David Mourão-Ferreira como uma "obra de categoria excecional" (cf. Vinte Poetas Contemporâneos, 2.ª ed., Lisboa, Ática, 1980, p. 168), e que foi, depois de sucessivas visitas de Jorge de Sena à censura, no sentido de desbloquear um livro que, não obstante a sua forma velada, deixava transparecer um nítido inconformismo, editado pela coleção "Cancioneiro Geral". Reúne os vinte e um sonetos de um "poema" ou "ciclo" (cf. SENA, Jorge - prefácio a As Evidências), "fruto angustiosamente amadurecido de uma outra sinceridade; aquela que devemos a nós próprios e à nossa própria expressão, naqueles momentos, como que revelados, de aceitação transcendente, demasiado áspera para ser lembrada todos os dias, mesmo em presença da poesia, e de objetividade em face do mundo, demasiado incómoda para as vantagens quotidianas de sermos apenas nós próprios" (id. ibi.). A escolha do soneto, de construção estrófica variável, e o recurso, do ponto de vista estilístico, a um "enovelamento sintático em que a hipotaxe predomina de um modo quase obsessivo" (cf. MOURÃO-FERREIRA, David - op. cit., p. 169), torna este volume de poesia exemplar naquilo que na obra poética de Sena é capacidade de verter um ato de conhecimento numa forma depurada e fustigada pelo rigor vocabular e prosódico. Ao mesmo tempo, desde o título do volume e soneto de abertura, até às contradições explanadas nos sonetos entre verdade e aparência, entre sentidos e razão, As Evidências, como a restante obra de Sena, segundo Luís Adriano Carlos, estabelece uma relação intertextual com um campo textual filosófico que introduz "na 'razão poética' uma razão dialética e uma razão fenomenológica, reintegradas numa razão existencial" (CARLOS, Luís Adriano - Poética e Poesia de Jorge de Sena, antinomias, tensões, metamorfoses, 2 vols., Porto, Faculdade de Letras, 1993, p. 13): num itinerário que vai da não-evidência das coisas à evidência da sua mutabilidade e à evidência do mal ("humanos, vis, / viscosos, fluidos, crustáceos", "solidão", "monstruosas mãos e duros dentes", "pavoroso nada", "amargura", "exílio", "tristeza", "traição", etc.), um dos significados que conduz as composições é o do evidente poder exorcizante da dor: "...Noite, meu amor, / ó minha vida, eu nunca disse nada. / ó minha vida, eu nunca disse nada. / Por nós, por ti, por mim, falou a dor. / Por nós, por ti, por mim, falou a dor. / E a dor é evidente - libertada".
Como referenciar: As Evidências in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-08-24 12:39:36]. Disponível na Internet: