Blake e Mortimer

Edgar P. Jacobs
Os protagonistas da série de banda desenhada Blake et Mortimer (Blake e Mortimer) foram criados por Edgar P. Jacobs, tendo surgido na revista belga Tintin no seu número inaugural, a 26 de setembro de 1946. O Professor Mortimer é um prestigiado físico escocês, amante de Arqueologia e "detetive amador". Por seu turno, o Capitão Francis Blake, da Royal Air Force, encontra-se ligado aos serviços secretos britânicos, nomeadamente o MI5.
Tendo presente o conflito terminado um ano antes (Segunda Guerra Mundial), o primeiro episódio, Le Secret de l'Espadon (O Segredo do Espadão), narra a tentativa de domínio do Mundo por parte de um tirano oriental e as estratégias para combater o seu poder autocrático, com a resistência a estar dependente de um projeto ultrassecreto do Professor Mortimer, o Espadão. Esta história marca também a estreia de Olrik, o malvado lugar-tenente ocidental que se encontra ao serviço dos asiáticos. A história foi reunida em dois álbuns, editados pela Lombard em 1950 e 1953 e, posteriormente, foi apresentada em três volumes. Seguiu-se Le Mystère de la Grande Pyramide (O Mistério da Grande Pirâmide), que apresenta uma das grandes paixões de Jacobs: a egiptologia. Um fragmento até então indecifrável permite descobrir um dos maiores achados arqueológicos de sempre, voltando os caminhos de Blake, Mortimer e Olrik a cruzar-se. Para além do enredo "policial", a história é fortemente marcada pelo fantástico. Foi publicada na Tintin entre 1950 e 1954, tendo posteriormente sido "desdobrada" em duas partes, com álbuns editados em 1954 e 1955).
La Marque Jaune (A Marca Amarela), publicada na Tintin em 1953, com álbum de 1956, constitui uma das mais apreciadas histórias da série e mesmo da BD europeia. Uma misteriosa personagem aterroriza Londres, a orgulhosa capital do Império Britânico, perpetrando o seu mais audacioso golpe com o roubo da Coroa Imperial da histórica Torre de Londres, para além de uma série de inexplicáveis raptos.
L'Enigme de l'Atlantide (O Enigma da Atlântida), de 1955, com álbum em 1957, apresenta uma interessante versão acerca do desaparecimento da mítica Atlântida que, neste caso, tem a particularidade de se situar nos Açores, num ambiente de ficção científica que faz recordar O Raio «U».
SOS Météores (SOS Meteoros), de 1958, com álbum de 1959, tem como pano de fundo a manipulação meteorológica na Europa ocidental, a anteceder uma eminente invasão por uma potência hostil, não declarada mas percetivelmente a antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), num ambiente bem ao estilo da "guerra fria". A ação principal passa-se em Paris e de novo Jacobs retratou ambientes reais com a minúcia que lhe era habitual.
Le Piège Diabolique (A Armadilha Diabólica), de 1960, com álbum em 1962, é um dos episódios mais singulares da série: Mortimer participa a "solo" e o adversário já não é Olrik, mas sim o falecido Professor Miloch, que deixou a Mortimer em testamento a sua mais prodigiosa invenção o cronóscafo, a máquina do tempo, com a particularidade de se encontrar sabotada, de modo a que Mortimer jamais regressasse ao seu tempo.
L'Affaire du Collier (O Caso do Colar), de 1965, com álbum de 1967, é considerado o trabalho mais policial, com a investigação do roubo de um valioso colar de diamantes, que tinha pertencido a Maria Antonieta, perpetrado através das famosas "catacumbas" de Paris.
Les 3 Formules du Professeur Sato I (As 3 Fórmulas do Professor Sato I), de 1971, com álbum em 1977, corresponde à primeira parte de um projeto já acalentado nos anos 60, marcando o regresso à ficção científica pela abordagem da cibernética. Sendo passado no Japão, quando Mortimer visita o seu amigo e colega Professor Sato, a sua conceção narrativa e gráfica foi pacientemente executada, motivo pelo qual este volume permanece tão interessante e atual, mostrando o contraste entre o passado e o presente do "País do Sol Nascente". A apresentação do segundo volume de As 3 Fórmulas do Professor Sato foi sendo sucessivamente protelada.
Foi Bob de Moor, fiel assistente de Hergé e velho amigo de Jacobs, que ficou encarregue de terminar este episódio, fazendo o desenho final e a coloração, uma vez que todas as páginas se encontravam esboçadas e o texto concluído. A história foi publicada a 30 de janeiro de 1990 na revista Hello BD, cujo álbum surgiu em maio do mesmo ano, ante grande expectativa.

Jean Van Hamme e Ted Benoit
Depois do lançamento do segundo volume de As 3 Fórmulas do Professor Sato, surgiram vários interessados em continuar a série e tudo se resolveu em 1992, quando a Dargaud adquiriu as Éditions Blake et Mortimer e o Studio Jacobs, de modo a que não existisse qualquer tipo de conflito em relação à continuação da obra do mestre Jacobs.
Uma vez resolvidas as questões jurídicas, a Dargaud decidiu apostar num dos mais populares argumentistas da BD europeia, Jean Van Hamme, e no talentoso Ted Benoit.
As primeiras páginas foram divulgadas na revista Lire, em fevereiro de 1996, tendo a história sido pré-publicada na totalidade na Télérama em junho desse ano. O lançamento do álbum L'Affaire Francis Blake (O Caso Francis Blake) foi feito com pompa e circunstância a 26 de setembro de 1996, coincidindo precisamente com o 50.º aniversário da série e, em simultâneo, da revista Tintin.
O sucesso não se fez esperar, com tiragens de algumas centenas de milhar de exemplares e a crítica a render rasgados elogios ao notável trabalho de Van Hamme e Benoit. A esse propósito, dois jornalistas deram corpo a um livro inteiramente dedicado ao regresso da história, Blake et Mortimer [Histoire d'Un Retour], editado na ocasião.
L'Étrange Rendez-Vous (O Estranho Encontro) surgiu em setembro de 2001 e o reconhecimento obtido foi também considerável. Tal como Van Hamme e Benoit tinham prometido aos leitores, a história passa-se nos EUA (onde a dupla de heróis nunca tinha ido) e volta a ter a ficção científica como pano de fundo, depois dos contornos mais policiais de O Caso Francis Blake.
Iniciando-se no século XVIII, regressa ao ambiente dos anos 50 nos EUA, no qual Benoit se sente particularmente à vontade para representar os grandes espaços, a arquitetura arrojada e os espampanantes automóveis.

Yves Sente e André Juillard
Após o grande êxito obtido com O Caso Francis Blake, Jean Van Hamme e Ted Benoit iniciaram o trabalho referente ao episódio seguinte, O Estranho Encontro. No entanto, o prazo previsto para a apresentação do álbum, 1999, foi sendo protelado pela demora em Benoit concluir os desenhos. Com o desenhador a não ceder a pressões, que comprometeriam a qualidade gráfica da obra, nem a aceitar a contratação de um ajudante, em 1998 a Dargaud tomou a salomónica decisão de procurar uma segunda equipa para trabalhar em paralelo. A escolha recaiu no "estreante" Yves Sente, argumentista, e ao nível do desenho o escolhido foi André Juillard, considerado um dos melhores autores franceses.O episódio La Machination Voronov (A Conspiração Voronov) foi inicialmente publicado na revista Figaro Magazine em 1999, com o álbum a surgir em janeiro de 2000, durante o Festival de Angoulême. A ação decorre em 1957 em plena URSS, onde a misteriosa morte de altos dignitários do regime deixa as potências ocidentais intrigadas, temendo um golpe de estado no interior do império comunista, que ameaçaria a segurança mundial. Por isso Blake e Mortimer vão a Moscovo, tentando também resgatar a agente russa que trabalha para o Reino Unido.
Les Sarcophages du 6e. Continent (Os Sarcófagos do 6.º Continente) surgiu em 2003, sendo uma história dividida em duas partes. No primeiro episódio os leitores ficam a saber como é que os dois amigos se conheceram na juventude e os problemas que vão enfrentar durante a realização da Exposição Universal de Bruxelas.

Produtos derivados
Embora a série não seja um fenómeno de produtos derivados, desde finais dos anos 90 (do século XX) que se tem notado a adaptação das personagens a diferentes suportes. Entre outros, merecem destaque os desenhos animados (numa série de 26 episódios), a BD interativa (multimédia) The Time Trap (A Armadilha Diabólica), os CD áudio com as peças radiofónicas de diferentes episódios (já anteriormente editados em vinil), alguns livros de estudo, um número especial da revista Science & Vie (novembro de 2003), sem esquecer a maior retrospetiva da obra prima de Jacobs, "Blake et Mortimer à Paris", realizada no Museu do Homem em Paris. Patente durante seis meses, a exposição coincidiu com o ano do centenário do nascimento de Jacobs, em 2004, apresentando um grande número de desenhos originais, a par de diversas peças (reais) relacionadas com a série, como esqueletos de pterodáctilos, múmias egípcias, armaduras medievais, mas também a ficção do cronóscafo ou o ambiente do Centaur Club, o seleto clube londrino que os heróis frequentam.
Blake e Mortimer em Portugal
Em termos de publicações periódicas, a série Blake e Mortimer está presente nas coleções dos periódicos Cavaleiro Andante, Titã, Foguetão, Tintin e Seleções BD (I e II séries) e no suplemento "Nau Catrineta", do Diário de Notícias.A primeira aparição verificou-se no Cavaleiro Andante (n.º 30, de 26 de julho de 1952), com a publicação de O Mistério da Grande Pirâmide, antes de a história ser "partida" em dois volumes.
Ao nível dos álbuns, as primeiras edições surgiram sob a chancela da Íbis e da Verbo, a partir de 1969.
Entre 1979 e 1983, a Livraria Bertrand editou praticamente todos os títulos em álbum, excetuando apenas a primeira parte de As 3 Fórmulas do Professor Sato.
Em finais dos anos 80, a Meribérica/Liber passou a deter os direitos da série. Inicialmente editou álbuns em versões idênticas às da Bertrand (cujos direitos pertenciam então à Lombard), tanto em versão cartonada (capa dura) como brochada (capa mole), como é usual nesta editora. Posteriormente, apresentou as novas edições, correspondentes às alterações feitas a partir de 1984, cujos direitos passaram a pertencer às Éditions Blake et Mortimer.
Os leitores portugueses contactaram com os derradeiros álbuns de Jacobs em 1991, com a edição dos dois volumes de As 3 Fórmulas do Professor Sato.
Quanto aos álbuns das novas equipas de autores, têm acompanhado a saída das edições originais: O Caso Francis Blake, em 1997, A Conspiração Voronov, em 2000, O Estranho Encontro, em 2001 e Os Sarcófagos do 6.º Continente, em 2003.
Enquanto autores da série, registe-se a presença em Portugal de Ted Benoit e de Jean Van Hamme em 1997, durante o Festival da Amadora, que dedicou nessa edição duas importantes exposições à série: uma relativa a O Caso Francis Blake e outra a propósito dos 50 anos da série, exibida em Bruxelas em 1996-1997, ambas integrando desenhos originais.
A série de desenhos animados passou no canal 1 da RTP (Rádio Televisão Portuguesa) em finais de 1998 e a BD interativa The Time Trap (A Armadilha Diabólica) foi distribuído pela Playgames em 2002. Em 1998 tinha surgido a versão francesa (La Piège Diabolique) distribuída pela Costa do Castelo.
Como referenciar: Blake e Mortimer in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-05-22 14:38:07]. Disponível na Internet: