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brancura
O conceito de brancura desenvolveu-se a partir do século XVII, por oposição ao de negrura. Este último conceito, mais antigo, remonta aos preconceitos cristãos e islâmicos de que a cor negra estava associada ao pecado, à negatividade, ao desconhecido e ao abismo. Há quem sustente que a cor negra entre os europeus só foi conotada negativamente a partir do século XVII com o desenvolvimento do colonialismo, enquanto que no Islão essa conotação negativa era muito mais antiga. Entre a cultura anglo-saxónica a cor branca era conotada com pureza e perfeição, um conceito que se tornou um preconceito racial quando os anglo-saxónicos começaram a conviver com os escravos negros. Este conceito de brancura sustentou a posterior corrente racialista que era contra a abolição da escravatura, por considerar os negros efetivamente inferiores e adequados à servidão e ao trabalho pesado. Em 1795, Blumenbach publicou uma classificação racial de caucasianos, mongóis e etíopes, em que os caucasianos brancos eram os mais bonitos, uma supremacia branca que foi mais tarde reforçada por Müller com os arianos e por Gobineau com a raça germânica. Todas estas teorias foram ratificadas científica e politicamente pelas sociedades ocidentais de domínio racial branco.
Foram estes conceitos que estiveram na origem da grande resistência política da sociedade branca relativamente aos movimentos abolicionistas da escravatura, sustentando que a essência inferior dos negros justificava perfeitamente a sua situação social de subjugação. Esta política foi utilizada para dotar os imigrantes brancos pobres de alguma importância e de certos privilégios sobre os negros, uma forma de identificação e de fidelidade para com os proprietários brancos e de controlo indireto sobre a sua própria situação económica e social que, em termos práticos, era, também ela, uma forma efetiva de escravatura. Assim, os "escravos" brancos, entre os quais muitos imigrantes irlandeses, obtiveram uma promoção social e reforçaram o status quo da escravatura legal negra. Esta invenção da raça branca, como lhe chamou Allen, foi mais tarde utilizada da mesma forma pelas sociedades latinas coloniais, mas como a legislação não proibia o casamento inter-racial, o mundo latino de cultura castelhana utilizava o termo "peninsular" em oposição ao de "criolo" numa distinção racial baseada na pureza do sangue.
Em resumo, o conceito de brancura foi utilizado para dotar a raça branca de superioridade e privilégios, valorizando-a perante qualquer outra raça. Os efeitos foram devastadores, não só entre os brancos, já que os negros juntavam à aversão pelos brancos, a aversão pela sua própria raça. Nesse sentido, surgiram movimentos de recuperação de autoestima entre a comunidade afro-americana no início dos anos sessenta, sustentados por slogans como "black is beautiful", ou "o preto é belo", e "black power", ou "poder negro".
A brancura deixou de estar tão conotada com a pureza e a supremacia, mas continua a estar associada a privilégio económico e social e ao poder. Atualmente a designação de negro mais "politicamente correta" é "não-branco", o que de certa forma alimenta preconceitos de discriminação.

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