cabala

Da raiz hebraica qbl, "tradição", "transmissão". A cabala reporta-se, antes de mais, ao Judaísmo e, no interior deste, ao núcleo de saber mais secreto que se oculta para lá das aparências. Era um saber transmitido de mestre a discípulo, quando o primeiro entendia que este último estava preparado, pois esse saber era considerado perigoso se caísse nas mãos daqueles que não estivessem à altura de o compreender.
Podemos encontrar dois grandes períodos da cabala, o seu nascimento, simultâneo ao neoplatonismo e ao gnosticismo, por volta do século II e III da nossa era e outro, mil anos depois, nos séculos XII e XIII. Para o cabalista os textos revelados do Judaísmo e o mundo da natureza são símbolos, quer dizer, ocultam no seu seio uma realidade que, trespassando as aparências, vão muito além delas, designando outras realidades superiores, imateriais. Se o mundo é uma criação divina, então Deus tem de ter deixado a sua "assinatura" (para usar uma expressão de Jacob Boehme, um cabalista cristão) nela; o mesmo se pode dizer dos textos revelados. O cabalista procurou, então, os meios para desocultar essa sabedoria divina que secretamente habita entre os homens. Deus criou pela palavra e, se assim é, deve ser na palavra que o mistério divino se patenteia, até porque, neste caso, a palavra é o que une o mundo, que por ela foi criado, e os textos sagrados, que por ela são revelados. Ora, fazendo corresponder a cada uma das vinte e duas letras do alfabeto hebraico - a língua de que Deus se serviu na criação - um número, vai-se obter um complexo sistema de interpretações da Bíblia. Por exemplo, a soma da letras de um nome pode ser a mesma de outro nome, o que significa, para o cabalista, que há entre eles uma ligação secreta. Outro método é o de trocar a ordem das letras de uma palavra, tornando patente um significado que não se deixava mostrar à partida.
As possibilidades de leitura da Bíblia a esta luz são ilimitadas. O saber cabalista é um saber esotérico, mas também místico. O livro que melhor representa a cabala é o Zohar, O Livro do Esplendor, um livro filosófico e teológico.
Os cabalistas chegaram a um sistema de correspondências que culmina nas dez sefirot, organizadas na "árvore sefirótica", que representam propriamente os atributos divinos, organizados numa rede de correspondências em três mundos: espiritual, anímico e material. Todo o ser é composto secretamente segundo esse modelo. Com base na cabala judaica surgiu uma cabala cristã, cujo máximo representante é, segundo os próprios cabalistas judaicos, Jacob Bohème.
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