calendário

A palavra calendário provém da palavra etrusca calendes que designava o primeiro dia do mês entre os Romanos. Para este povo, o calendarium era um livro de contas dado que estas se pagavam no início de cada mês. No entanto, há vários tipos de calendários, históricos ou religiosos, muitos deles em vigor ainda. O calendário romano foi o primeiro a ser implantado no Ocidente, através da imperialização de Roma e do seu sistema administrativo. Foi Rómulo, segundo a tradição, quem esteve na sua origem. O calendário romano era um calendário lunar em que o ano era constituído por 304 dias divididos em 10 meses, contados a partir da data da fundação de Roma, em 753 a. C. Inicialmente, os meses tinham nomes formados a partir de numerais terminados em 'ilis como aprilis (2.º), quintilis (5.º), sextilis (6.º) ou em 'ber como september (7.º, septem ab imbre: o 7.º depois das neves), october (8.º), november (9.º), december (10.º). Depois, surgiram nomes formados a partir de divindades a quem os meses eram consagrados: o 1.º, martius (Marte, deus da guerra); o 3.º, maïus (Maïus ou Maïa, divindades pré-romanas), o 4º, junius (Juno, esposa de Jupiter). Depois do último mês, era acrescentado o número de dias necessário para igualar o ano solar e não tinham inicialmente nenhum nome específico. Mais tarde, a partir deles formaram-se dois meses, colocados no final do ano, a seguir a dezembro: um foi colocado antes de martius e chamado januarius (dedicado a Janus, divindade pré-romana dotada de dois rostos); o outro, februarius, ficava a seguir a dezembro. Os meses tinham um número de dias ímpar, pois os Romanos acreditavam que o número ímpar trazia bons augúrios. O total perfazia 354 dias, a que se acrescentava mais um ao último mês que, de 27 dias, passava a ter 28, de forma a que o número de dias do ano fosse ímpar. Contudo, o mês passava a ter um número par de dias, o que o transformava num mês nefasto, passando a ser consagrado à cerimónias expiatórias. Daí o nome que lhe foi atribuído - februarius, a partir de februare, verbo arcaico de origem sabina e que significava "purificar". A partir do ano 400 a. C. tornou-se no segundo mês do calendário romano.
O Calendário gregoriano, ou ocidental, tem origem cristã. Dada a importância da Páscoa entre os Cristãos, desde sempre se procurou datá-la de forma a que a sua celebração não conhecesse disparidades de... calendário. Em 455, devido aos debates em torno da Páscoa, Hilário, arquidiácono do papa Leão, o Grande (440-461), encomendou a Victorius da Aquitânia uma tabela cronológica para o efeito. Esta situou a Paixão do Senhor numa data que corresponderia ao ano de 28 da nossa Era, dita Cristã. Em 532, de acordo com uma proposta do monge cita Dionísio, o Pequeno (m. 540, em Roma; os seus cálculos têm um erro igual ou superior a 4 anos), a Igreja decidiu contar os anos a partir do 1 de janeiro que seguiu o nascimento de Jesus, tido a 25 de dezembro do ano de 753 da fundação de Roma. Ou seja, o 1 de janeiro do ano de 754 da fundação de Roma tornava-se retrospetivamente no dia 1 de janeiro do ano 1 da era cristã. O ano do nascimento de Jesus não é o ano 0 mas antes o ano 1 d. C., saltando-se do ano 1 a. C para 1 d. C. Esta forma de se contar os anos da era cristã começou a ser aplicada na França no século VIII, em Espanha no século XIV e em Portugal apenas em meados da centúria seguinte, cerca de 1420.
Subsistiu um outro calendário, dito juliano, até à Idade Média, chamado de Era de César, que principiava 38 anos antes do começo da Era Cristã. O calendário juliano, que deve o seu nome a Júlio César, surgiu por este ditador romano ter querido pôr o calendário de acordo com o curso anual do Sol, o que perfazia exatamente 365 dias e 6 horas. Pretendia também César acabar com os abusos dos pontífices na divisão do ano, que era feita de acordo com interesses pessoais ou corporativos. A reforma juliana admitia três anos comuns de 365 dias, seguidos de um ano bissexto em que se acrescentava um dia suplementar no mês de fevereiro. Cada mês dividia-se em três partes desiguais: as calendas, os idos e as nonas. As calendas caíam no primeiro dia da lua nova, o primeiro do mês, ou no primeiro terço do mesmo (não existiam entre os gregos, daí mandar-se para as "calendas gregas", sine die); os idos caíam nos dias de lua cheia (13 ou 15); as nonas começavam nos nove dias antes dos idos (5 ou 7). Contavam-se os dias das calendas seguindo a sua ordem antes das nonas; depois, de igual modo, das nonas aos idos; e os idos segundo a sua ordem até às calendas. A diferença entre o ano solar e lunar acumulou-se ao longo dos séculos e em 1582 era já de dez dias. Este ano foi reformado pelo papa Gregório XIII. O atraso acumulado desde a sua adoção (do juliano), em 45 a. C., era de 11m 14s por ano (ou 18h 40m por século), mas a reforma não teve em conta os 10 dias de atraso acumulados depois do concílio de Niceia (325), negligenciando o atraso de 3 dias acumulados desde a sua adoção até à época do concílio. O ano ficou com 365 dias, mas certos anos bissextos foram suprimidos. Desde então, são anos bissextos os anos divisíveis por 4, à exceção dos anos múltiplos de 100, que não são divisíveis por 400 (por exemplo, 1900). Ou seja, para acertar a diferença, o papa ordenou que a 5.ª feira 4 de outubro desse ano de 1582 fosse imediatamente seguida de 6.ª feira 15. Suprimiu depois os anos bissextos seculares, salvo aqueles cujo milésimo fosse divisível por 4. Há ainda um erro de um dia em cada 4000 anos. Atualmente está adiantado em 13 dias ao calendário juliano, que subsiste na Europa Oriental, cristã ortodoxa.
O calendário gregoriano, desde 1582, tem sido alvo de intenções de reforma e recálculo. O sistema atual, por exemplo, apresenta alguns defeitos, como a duração variável dos meses ao longo do ano, com uma variação de cerca de 12% do número de dias de trabalho mensais ao longo do ano, o que perturba as estatísticas económicas; ou a mobilidade de certas festas (segundas-feiras de Páscoa e de Pentecostes, Ascensão); a coincidência possível de um dia feriado com um domingo, entre outras complicações de calendário que alteram planificações. Vários são por isso os projetos desde o século XIX para se uniformizar o calendário gregoriano (ocidental). Por exemplo, as propostas de: Armelin e Hanin (1887), com 4 trimestres de 91 dias com meses de 30 e 31 dias; de Auguste Comte (1849), de 13 meses de 28 dias, um calendário fixo, portanto; ou a de John Robertson, de 4 trimestres com meses de 28 dias e 1 mês de 35, entre muitas outras.
Um outro calendário que existe em simultâneo com o gregoriano é o eclesiástico, ou litúrgico, organizado à volta das festas do Natal e da Páscoa, em função das quais se distribuem os vários domingos: domingos do Advento; domingo depois do Natal; domingo da Quaresma; domingo da Páscoa; Tempo Comum (1.ª parte entre o domingo a seguir à Epifania e a 4.ª Feira de Cinzas, 2.ª parte entre o domingo a seguir ao Pentecostes e o Sábado anterior ao 1.º domingo do Advento); Solenidades ou Festas importantes. O Natal, recorde-se, surgiu no Ocidente apenas cerca de 330, em Roma, impondo-se no Oriente apenas no século V e na Palestina cerca de 570. Os Orientais festejam o Natal a 6 de janeiro, juntamente com as festividades pós-natalícias (Adoração, Circuncisão, Batismo...).
Recorde-se igualmente que no Ocidente chegou a experimentar-se um outro calendário, em França, entre 1793 e 1806. Trata-se do calendário republicano, saído da Revolução Francesa: o ano começava no equinócio de outono (22 de setembro) e estava repartido em 12 meses de 30 dias cada, com os restantes 5 ou 6 dias a serem consagrados à comemoração de efemérides republicanas. Os meses eram: no outono, Vindimário, brumário, Frimário; no inverno, nivoso, Pluvioso, Ventoso; na primavera, Germinal, Floreal, pradial; no verão, Messidor, Termidor e Frutidor. Cada mês dividia-se em décadas de 10 dias, chamados, de acordo com a sua ordem: primidi, duodi, tridi, quartidi, quintidi, sextidi, septidi, octidi, nonidi, decadi.
Mas outros calendários existiram ou prevalecem a par do gregoriano. Por exemplo, o Asteca, solar,´que tinha 18 meses de 20 dias (360), mais 5 nefastos; os séculos tinham 56 anos. Para além deste calendário civil, tinham também um religioso, com 260 dias (tonalpohaualli) e um "venusiano", de 564 dias solares. Findos 56 anos venusianos (104 solares, cerca de dois séculos), os 3 calendários retomavam uma data igual. Na China subiste um calendário luni-solar, com anos de 354 ou 355 dias (curtos) ou de 383 e 384 (longos). O calendário Grego antigo era lunar, com ciclos de quatro anos, correspondentes aos Jogos Olímpicos. Cada pólis tinha um calendário particular. Atenas, por exemplo, tinha um ano lunar de 12 meses de 29 e 30 dias, intercalando em cada 2 anos um mês suplementar, alternadamente de 22 ou 23 dias. O dia começava com o pôr do sol. Os meses eram: hekatombeion, metageitnion, boedromion, pyanepsion, maimakterion, poseideion, gaurelion, anthesterion, elaphebolion, munikion, targelion, skirophorion.
Os Hebreus têm um calendário lunar, adotado no século IV da nossa Era. Tem doze meses: Nisan, Iar, Sivan, Tamuz, Ab, Elul, Tisri, Maresvan, Kislev, Tébet, Chebat e Adar. A Páscoa (Pessah) judaica é o marco referencial do ano hebraico e corresponde ao 14.º dia lunar de Nisan (entre março e abril). A semana tem sete dias e começa no Sabbat, dia do Senhor e de descanso. O dia tem 24 horas também, divididas cada uma em 1080 partes. O primeiro dia da era judaica corresponde ao 7 de outubro de 3761 a. C., data da Criação para os Judeus. Daí estarem no ano de 5763 da sua era. Já o calendário Muçulmano, também lunar, foi adotado em 632: o primeiro dia da era islâmica (Hégira) corresponde ao dia 16 de julho de 622, aquando da fuga de Maomé de Meca para Medina. Por isso está-se em 1380 no mundo islâmico. O ano tem 12 meses, que têm alternadamente 29 ou 30 dias (contados a partir do pôr do sol do dia civil precedente). Um ano normal tem assim 354 dias: para corrigir este desacerto com o movimento do Sol, em cada 30 anos 11 são aumentados de um dia no último mês. O primeiro dia, o 1.º Muharram, cai entre os meses de março e abril.
Os Indianos têm também, além do calendário gregoriano, um próprio, dividido em 6 estações que compreendem 12 meses coincidindo cada um com o tempo que o Sol leva a percorrer cada um dos signos do Zodíaco. O ano começa normalmente em 20-21 de março. Cada mês está dividido em 30 dias. Durante muito tempo coabitaram dois calendários: o lunar (354 dias, de passagem da Lua sobre os signos zodiacais) e o solar (365 dias mais uma fração de dias diferente em cada região). Depois deu-se a fusão dos dois sistemas, enquadrados por eras. No Japão subsiste o calendário gregoriano, embora se fale em épocas que aludem ao imperador reinante (Meiji, por exemplo, de 13 de outubro de 1868 a 29 de julho de 1912, etc.). Todos os outros calendários existentes ou que pertenceram a civilizações desaparecidas, como a do Egito Antigo, baseiam-se em anos de 12 meses de 30 dias cada mais 5 dias suplementares, com os devidos acertos cíclicos.
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