Carminha

Personagem de O Dia dos Prodígios (1980) de Lídia Jorge. Carminha Parda, "Branca e lisa, sem resíduo de fogagem nem impingem. Sobrancelha rala, longe dos olhos escuros, e o escuro dos olhos sobre o azulado do branco, vidrado e transparente como verdadeiro vidro. Cabelo escorrido e pesado como uma cauda de cavalo preto, azulado e brilhante, reflexo de uma asa de corvo", vive isolada com a mãe, Carminha Rosa, no alto de um empedrado, banida por uma vizinhança que não perdoa a mácula do nascimento desta filha incógnita do padre Pardo. Carminha, noiva virgem de um soldado morto na guerra, "de mãos erguidas de encontro ao vidro, como se quisesse levantar voo, e uma gaiola de membros terrestres a prendesse ao solo", transforma, à medida que o tempo passa, a sua juventude, incumprida e traída, na incapacidade de acreditar no que quer que seja (prodígios, chegadas, revoluções), convertendo-se, então, em personagem-metáfora de um país onde nenhuma revolução é possível porque o tempo é sempre o mesmo, de tristeza.
Como referenciar: Carminha in Artigos de apoio Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2019. [consult. 2019-08-23 20:58:36]. Disponível na Internet: