Casa do Paço

A Casa do Paço, virada para a foz do rio Mondego, é uma construção dos finais do século XVII e teve como mandante o Bispo-Conde de Coimbra, D. João de Melo. Este edifício nunca chegou a ser concluído e nele denotam-se várias semelhanças com o mosteiro conimbricense de Santa Clara-a-Nova, obra finalizada pelo mesmo eclesiástico.
Pertencente ao morgadio de D. João de Melo, o Paço da Figueira da Foz foi mandado construir para casa de veraneio. Em meados do século XIX, o edifício foi comprado por Manuel dos Santos Júnior e por ele mandado restaurar. É nesta altura que o fabuloso revestimento cerâmico - a azulejos de figura avulsa de fabrico holandês, do 1.º decénio do século XVIII - se torna amplamente conhecido e desperta o interesse dos estudiosos. No paço figueirense encontra-se a maior e mais importante coleção desta tipologia de azulejos reunida no local original. Atualmente, o antigo Paço do bispo é propriedade do Grémio do Comércio da Figueira da Foz.
De planta em "U", o edifício mostra uma fachada marcada por um torreão (no projeto tinha duas e hoje ainda são visíveis) e pelo rigor da simetria, reforçada nas suas amplas janelas. A entrada é feita pelo pátio norte que é fechado. É no seu interior que reside o excecional interesse deste edifício, o revestimento azulejar holandês em quatro das suas dependências.
Os historiadores dividem-se quanto à origem destes azulejos. São três as opiniões mais plausíveis: a primeira considera que os azulejos são provenientes de um naufrágio ao largo da Figueira da Foz de um navio holandês, o que na realidade ocorreu em 1706; a segunda baseia-se nas relações comerciais existentes com a Holanda, na altura em que Portugal importava grande quantidade de azulejos, o que é provado pelos livros da Alfândega deste porto marítimo. Para Santos Simões, esta tese não será muito aceitável, uma vez que na época os azulejos importados eram essencialmente grandes painéis figurados e não azulejos de figuras avulsas. O terceiro argumento defende que um dos Melos (descendentes do Bispo-Conde) os tenha encomendado a um negociante de área, uma vez que aplicou numa sua casa junto ao Convento dos Capuchos variadíssimos tipos de azulejos, incluindo os de figura avulsa provenientes da Holanda.
Interiormente, as várias salas do paço são forradas a azulejos avulsos holandeses criando diversas composições. Cada azulejo, de fabrico semi-industrial, constitui um pequeno quadro e o conjunto reparte-se por três grupos: o primeiro, de azulejos azuis e brancos com paisagens campestres e marítimas, com os cantos em cabeça de boi; o segundo, azulejos com cavaleiros pintados a azul manganês sobre fundo branco e cantos preenchidos por pequena flor; finalmente, o terceiro grupo versa temas bíblicos com os ângulos em cabeça de boi, igualmente pintados a manganês sobre fundo branco.
O responsável pela montagem dos azulejos variou as composições, fazendo sempre variações cromáticas ao relacionar os temas. Assim, na primeira sala à esquerda, o painel apresenta ao centro cavaleiros simulando uma batalha, moldurados pelos azulejos paisagísticos. Na segunda sala, assim como a biblioteca, a combinação é inversa. No gabinete da direção do Gabinete de Comércio, a cercadura de paisagens encerra cenas bíblicas. A disposição tem sempre em comum a preocupação de criar um belo efeito geométrico.
Outras questões se levantaram no grupo de azulejos que representam os cavaleiros, por neles aparecerem inscritas iniciais. As opiniões dividem-se e para Santos Simões as iniciais são ligadas às personagens representadas. É notável a quantidade deste tipo de azulejos, não muito usuais em Portugal. Trata-se de um número superior a doze mil, reunidas na casa dos Melos em Lisboa e no Paço da Figueira da Foz.
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