castro

Desde o Neolítico, as populações autóctones do Noroeste da Península Ibérica assumiram preocupações defensivas nos seus povoados, cada vez mais alcandorados no topo aplanado de elevações de terreno capazes de abranger uma larga panorâmica à sua volta e com defesas naturais. Com a chegada dos Celtas a partir do século VI a. C., dá-se a sua fusão com essas populações, iniciando-se aqui aquilo a que alguns autores chamam civilização castreja. De facto, os Celtas possuíam idênticas formas de povoamento, porém com avanços técnicos diferentes e um carácter um pouco mais belicoso. Adaptaram-se bem à região e aos costumes e fundiram-se: deixa de falar-se em Celtas para se falar em populações castrejas, com larga influência e tipicidade própria das populações indígenas da região.
A sua vida interna é ainda quase desconhecida, depreendida a partir de vestígios arqueológicos (utensílios de corte, de ornamento ou decoração, armas, instrumentos agrícolas, de metalurgia, etc.) ou de alguns relatos de viajantes gregos ou romanos. O seu número terá sido grande (perto de 5000, talvez, só na Galiza, por exemplo), a avaliar em parte também pela toponímia que deixaram na Galiza e Norte de Portugal, nomeadamente, embora existam também no centro e sul do país, com ligeiras diferenças ("castelos", fortificados ou não).
Os povoados castrejos não tinham relações de vizinhança uns com os outros, vivendo-se numa atmosfera guerreira, devido à existência de diversas tribos nas suas regiões de implantação. Por vezes, só tinham ocupação temporária, em caso de perigo. A sua dimensão era variável, alguns com cerca de 300 m (normalmente atingiam entre algumas dezenas e uma ou duas centenas de metros). Privilegiavam a proximidade de cursos de água, para abastecimento, apesar de se encontrarem cisternas em alguns ou aquedutos construídos na ocupação romana. As muralhas - de pedra solta - atingiam relativa espessura, em alguns casos até três cinturas de muros à volta do castro. Os castros eram geralmente de planta circular (tosca) e tinham acessos por rampas encimadas por postos de vigia onde se empilhavam pedras e lanças, para além de terem vigilância constante. Fossos e aterros aparecem também junto aos muros. As suas casas, feitas também de pedra solta, localizavam-se de modo aleatório, embora por vezes dispostas em caminhos, como em Briteiros. Geralmente redondas (a romanização torná-las-á quadradas ou retangulares), eram cobertas de colmo (as telhas são já de origem romana), possuindo um diâmetro entre 3 e 3,5 m. O telhado era apoiado numa estaca grossa de madeira no centro da cabana, fixo numa pedra. O pavimento da casa era em solo natural ou argila pouco cozida, embora com a romanização se tenham introduzido os mosaicos, como se pode ver em Conímbriga, castro romanizado típico.
As populações dedicavam-se basicamente à pastorícia, para além da agricultura e, nos castros marítimos, à pesca ou apanha de moluscos. A metalurgia era frequente, bem como o fabrico de cerveja. Os cultos e divindades eram locais, gradualmente assimilados ao culto romano, embora os primeiros se mantivessem em muitos castros. Provavelmente, terão ocorrido alguns sacrifícios humanos em castros, influência de origem céltica.
Apesar desta marcha de vida se ter mantido intacta durante alguns séculos, com o século II a. C. chegaram à Península as poderosas legiões romanas, guarda avançada de uma civilização em crescendo. A irredutibilidade e o espírito guerreiro das populações castrejas, ainda que tenha resistido muito tempo, soçobrou pelo cerco, cansaço, fome e doença face aos Romanos, que as obrigaram a viver junto das suas villae nas planícies, orladas de estradas e, aqui e ali, de pontes. Sanfins, perto de Paços de Ferreira, por exemplo, só caiu em 22 a. C. Muitos castros foram despovoados em virtude de as suas populações terem sido obrigadas a viver na planície ou mesmo pela destruição e dizimação dos habitantes. Alguns transformaram-se - ou os seus lugares - em castelos ou povoados medievais (como no Porto, por exemplo). Outros sofreram a influência romana, variável de castro para castro, diminuindo para norte ou para as serranias. Os traços arquitetónicos (das casas geométricas e pavimentadas às lages nos caminhos e acessos), para além da forma de vida, da língua e costumes, poucos se mantendo para além do fim do Império, no século V (Briteiros, Conímbriga), atestam a influência romana, muito visível também nas inscrições, epígrafes, moedas e artefactos. Linguisticamente, demorarão séculos até se perderem os elementos da linguagem castreja, visto a difícil aculturação aos padrões romanos ter sido muito acusada pela língua, apesar de o latim ser oficial. Porém, a romanização nunca submergiu completamente a cultura castreja.
Dos castros mais famosos, para além dos citados, temos, no nosso país, o Monte de Santa Luzia (Viana do Castelo), Âncora, Terroso (Póvoa de Varzim), Bagunte (Vila do Conde), Sabroso (Guimarães) e Franqueira (Barcelos). Dos habitantes castrejos beirões, o mais famoso é Viriato.
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