catarismo

Movimento gnóstico cristão dos séculos XII e XIII que proliferou sobretudo na Occitânia, no Sul de França, e também, embora numa proporção bem menor, em Itália e na Península Ibérica. Os cátaros organizavam-se em comunidades onde viviam asceticamente segundo os princípios da sua doutrina.
Desconhecem-se as fontes do catarismo, embora se costume relacioná-lo com o bogomilismo (movimento neomaniqueista do século X na Bulgária). Há também quem refira (Otto Rahn) a proximidade entre o priscilianismo (século IV) e o catarismo, afirmando que foram os primeiros que converteram os druidas ao Cristianismo e que este facto foi a origem do catarismo no século XII. Contudo, as raízes do catarismo continuam por esclarecer, uma vez que é possível encontrar afinidades com um ou outro movimento, mas não encontrar alguma conceção igual à sua original tomada de posição face ao problema do bem e do mal. Não é possível atribuí-la ao maniqueismo, uma vez que para este o bem é identificado com o espírito e o mal com a matéria. Para os cátaros há desde a origem dois princípios opostos, mas, e a originalidade está aqui, são ambos espirituais, embora só o princípio do mal tenha possibilidade de descer até à matéria - justificam este facto, por exemplo, com uma frase bíblica que afirma que os deuses se uniram sexualmente com as mulheres (Genesis, VI, 2). Desta conceção se depreende que o mundo não foi criado pelo princípio do bem, o verdadeiro Deus, é antes uma obra do mal, pois só o mal pode criar o mal e o sofrimento. Esta criação tem como missão manter as almas aprisionadas. A esta conceção se chamou dualismo absoluto, contudo há um dualismo moderado também dentro do catarismo que não vai tão longe assim (segundo a opinião de um dos maiores especialistas no assunto - René Nelli). Os cátaros que defendiam um dualismo mais moderado afirmavam que o diabo se revoltou contra Deus e criou um mundo para si, fez uma criação sua, onde tenta manter as almas aprisionadas.
Perante uma tal doutrina, que os cátaros fundamentam sempre através de citações do Evangelho, propõe-se uma doutrina da salvação baseada numa ascese que permite libertar a centelha divina do mundo da matéria, do corpo. Consequentemente, os cátaros recusam a encarnação de Cristo, pois sendo Ele pura luz, emanação do bem, nunca poderia ter descido até à matéria.
Eles acreditam na teoria da reencarnação, segundo a qual a alma volta a encarnar noutro corpo após a morte até que seja capaz de reconhecer, pelo verdadeiro conhecimento, a sua origem pura e passe a procurar libertar-se da matéria.
Os cátaros dividiam-se em "perfeitos" e "crentes". Os primeiros são aqueles que receberam o sacramento do consolamentum, o batismo cátaro através da aposição das mãos; os "perfeitos" eram os sacerdotes propriamente ditos e que tinham enveredado pelo caminho da libertação; só estes viviam em comunidades organizadas. Eles submetiam-se a uma ascese muito rigorosa que incluía o esquecimento de si em favor do outro, uma vida autenticamente espiritual, em que deviam aprender a resistir corajosamente aos sofrimentos do corpo, o vegetarianismo e jejuns frequentes e uma prática de pobreza rigorosa. Os "crentes" eram a massa dos fiéis, relativamente aos quais os "perfeitos" procediam com muita indulgência, pois sabiam-nos ainda presos ao mal. A estes recomendavam apenas a prática das virtudes de modo mais ou menos regular; podiam casar, ao contrário dos "perfeitos"; podiam comer carne. Os "perfeitos" sabiam que essas almas ainda teriam de esperar uma série de encarnações para reconhecerem a verdadeira doutrina.
Os cátaros opunham-se à Igreja Católica romana que consideravam ter subvertido a verdadeira mensagem do Cristo, uma mensagem de luz eterna contra o princípio do mal, que é a origem da matéria.
No início do século XIII começam, por parte da Igreja, as cruzadas contra os cátaros, numa horrível mortandade de cidades inteiras chacinadas e queimadas, que só pararam quando o movimento se extinguiu. Contudo, a sua influência sobreviveu até ao século XX, pelo menos sob a forma de literatura. A propósito da literatura tem sido referida a relação entre a poesia trovadoresca e o catarismo.
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