Ciência e Estado: fusão e choque desde 1940

Ao longo do século XX, e principalmente a partir da década de 40 e na segunda metade do século, em vários países do Mundo, a ciência e a investigação científica passaram a ser consideradas assuntos de Estado. Isto acontece principalmente porque a ciência se torna na criadora de cada vez mais e mais avançados recursos militares e civis do Mundo contemporâneo.
Assim, os laboratórios e as fábricas são associados e englobados nos programas do Estado, estreitamente controlados pelas políticas de cada país, chegando alguns cientistas mais proeminentes a ser considerados como "tesouros nacionais".
Este processo é mais relevante nos países mais desenvolvidos, numa fase em que o Mundo se encontra polarizado e dividido em duas frentes rivais: o Bloco Ocidental e o Bloco de Leste, encabeçados respetivamente pelos Estados Unidos da América e pela União Soviética, encontrando-se a Europa Ocidental em pleno processo de reconstrução após a destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, e já depois da criação da primeira pilha atómica em 1942, Roosevelt irá desenvolver um projeto de armamento nuclear, como resposta ao Projeto Urânio iniciado pelos cientistas alemães, e com algum receio das consequências que poderiam advir das experiências do inimigo. Os cientistas americanos contam agora com a colaboração de muitos europeus, para ali emigrados durante a guerra, estando também em contacto com os seus congéneres britânicos. Há assim dois objetivos principais: o desenvolvimento de meios de armamento destrutivo, que se reflete no Projeto Manhattan, com o intuito de estudar e construir, em Los Alamos, duas bombas nucleares - uma de urânio 235 produzido em Oak Ridge, outra de plutónio produzido em Hanford; o segundo objetivo prende-se com o desenvolvimento de um sistema defensivo cada vez mais avançado e que gravita em torno dos radares.
O projeto Manhattan, criado em 1943, é dirigido pelo general Groves e pelo físico Oppenheimer. Dá trabalho a 150 000 pessoas no centro de pesquisa experimental e nas fábricas de produção de matérias cindíveis, obrigando o Estado a despender dois mil milhões de dólares. Este projeto culmina em 1945 com a explosão de uma bomba de plutónio no deserto do Novo México.
A intenção dos cientistas era tornar a experiência pública, para que fosse, por si só, suficientemente dissuasiva e intimidativa, sem que o uso efetivo da bomba viesse a ser necessário. Contudo, este plano acaba por se revelar inaplicável, sobretudo porque se corria sempre o risco de a experiência não dar os resultados esperados. A 6 de agosto de 1945, Enola Gay lança a primeira bomba atómica, com o nome de código "Little Boy", em Hiroxima, e a 9 de agosto explode a "Fat Man" em Nagasáqui. Os efeitos, tanto imediatos como recorrentes, destas armas de destruição massiva foram aterradores.
A União Soviética inicia também o processo de fabrico de bombas nucleares, construindo a sua primeira bomba atómica em 1949, facto que provoca enorme alarme no Ocidente.
Quando em 1986 se dá a catástrofe de Tchernobyl, na Ucrânia, e se tornam patentes os perigos e malefícios das substâncias atómicas e nucleares - mesmo sem serem utilizadas em armamento - todo o Mundo é abalado pela necessidade de repensar a exploração deste tipo de recursos.
Mas estas não são as únicas conquistas da ciência na segunda metade do século XX. Esta foi também uma importante fase de combate a diversas doenças, que assolavam todo o Mundo e matavam milhares de pessoas. As condições de extrema miséria, pobreza e fome que se verificavam por toda a Europa que saía da guerra em 1945 e fez ressurgir graves surtos de cólera, tuberculose, desinteria e tifo. Os estados assumem as questões da saúde como tarefa sua e por toda a parte se lançam programas de saúde pública, a par da intensificação da investigação científica em busca de novos medicamentos, tratamentos e vacinas.
Nos Estados Unidos a tuberculose e mais tarde a poliomielite tornam-se também epidemias com alguma gravidade, até à Segunda Guerra Mundial.
A penicilina, apesar de ter sido descoberta na década de 30, é produzida para responder às necessidades dos soldados durante a guerra e acaba por salvar inúmeras vidas combatendo infeções que anos antes provocariam a morte. Também o DDT passa a ser muito utilizado por toda a Europa como forma de prevenir a desinteria, o tifo e os piolhos. Iniciam-se programas de prevenção sendo esta agora uma palavra-chave, como primeira preocupação, a de evitar a doença antes de se tornar numa epidemia.
A luta contra a tuberculose conhece em 1954 a sua primeira grande vitória, com a descoberta de um tratamento eficaz. Mais tarde é a vez de a poliomielite recuar perante a vacina desenvolvida pelo Dr. Salk.
Contudo, nos países subdesenvolvidos estas e outras doenças continuam a matar indiscriminadamente. O sarampo, a cólera, o tifo, a gripe, a peste, e sobretudo a varíola são responsáveis por milhares de mortes por toda a África, Índia e América Latina. Programas liderados pela Organização Mundial de Saúde iniciam um vastíssimo processo de rastreio e erradicação destas doenças, sendo 1980 o ano da erradicação mundial da varíola.
Estas conquistas da ciência e sobretudo da medicina vão abrir caminho a uma geração que viverá sem a sombra das doenças que ameaçavam as gerações anteriores. A esperança média de vida aumenta em cerca de 20 anos e generaliza-se uma sensação de plena confiança nas capacidades da ciência.
Contudo, esta confiança é profundamente abalada pelo aparecimento de novas epidemias, para as quais a medicina não encontrou, até hoje, qualquer solução. É o caso da sida, doença mortal que continua a fazer vítimas por toda a parte.
Outro campo em que se verificam importantes progressos científicos é o das tecnologias de informação: a informática. A primeira geração de computadores surge em 1946, com os computadores de tubos eletrónicos; a segunda geração é iniciada escassos 13 anos mais tarde, em 1959, com os computadores de transístores modelo IBM. Os circuitos integrados dão em 1965 início à terceira geração, com os computadores de modelo IBM 360, que têm já um tempo de resposta de 5 bilionésimos de segundo, a quarta geração arranca na década de 70 e a perspetiva é que a informática esteja sempre em constante evolução.
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