classe média

A questão da classe média mantém-se como uma das mais polémicas na teoria das classes sociais, quase como o paradoxo de uma terra de ninguém à qual "todos" acabam por pertencer.
Historicamente indissociada da Revolução Francesa, a classe média começa por ser a burguesia, quer dizer, aquela categoria social que, não se confundindo com a aristocracia do Antigo Regime, nem por sombras quer ser confundida com a populaça, pobre de raiz e rica de vícios. Forma-se ideologicamente a "burguesia dos proprietários", livres porque livre é também a propriedade, educada e poupada porque a virtude cultiva-se e o esbanjamento só colhe nos que não precisam de virtude (os que têm tudo e os que não têm nada). Vê-se que só uma alquimia ideológica permite unificar a "classe média" a partir da variedade de "classes médias" e daí deduzir unidade de consciência e interesse.
Não surpreende, portanto, que desde cedo as classes médias mobilizem a produção teórica marxista ou que nela procurem contributos. A polémica nasce sobretudo do pressuposto marxista da tendencial dicotomia de classes sob o capitalismo e da consequente inaceitabilidade de surgir um terceiro grande e sólido agrupamento de classe. São três os critérios clássicos na abordagem das classes médias:
i) são segmentos ou extensões das grandes classes tradicionais marxistas, isto é, nova pequena burguesia (por exemplo, N. Poulantzas), ou, então, nova classe operária (por exemplo, A. Gorz), uma e outra sem consistência em termos de futuro histórico;
ii) são uma nova grande classe (por exemplo, A. Gouldner);
iii) constituem "lugares contraditórios de classe", com interesses paradoxais, a clarificar no futuro num sentido ou noutro (O. Wright dos primeiros tempos).
Passando por cima da velha discussão sobre o aburguesamento ou a proletarização das classes médias, tornou-se mais ou menos consensual a enorme complexidade das novas relações de classe, das expectativas geradas em torno da educação de massas, dos estilos de vida urbanos, da expansão do trabalho qualificado não manual e respetivo status, da crise da mobilização sindical, de estruturas de classe que pareciam afastar-se da bipolarização.
Entretanto, os países de capitalismo avançado fornecem novos indícios que voltam a remexer a questão. É o caso da tese do mercado de trabalho dual - de um lado poucos empregos bem pagos e estáveis; do outro, emprego instável e mal pago, subemprego, desemprego, ou, em alternativa, emprego subsidiado - incentivada por fatores como a introdução de tecnologias novas, a liberalização global com a concorrência de mercados emergentes, a imigração. Formam-se as ideias de população excedentária, de um novo proletariado pós-industrial, de declínio das classes médias e, claro, de uma nova estrutura de classes. Também aqui a polémica se impõe - ainda é cedo para concluir da formação de novas classes, pois parte importante desse "exército excedentário", jovem e escolarizado, dá sinais de não permanecer longo tempo com a mesma localização de classe, movendo-se numa trajetória de capilaridade social, através de ranhuras de entrada ("first-entry slots") e plataformas provisórias ("stop-gap jobs").
Pegando numa fórmula feliz de Steve Bruce, a Sociologia é complexa porque a sociedade é complexa. E, se podemos dizer das classes médias que são o ponto fraco da teoria das classes, igualmente podemos dizer que, como símbolo do lábil, são o que mais impede a teoria das classes de se sentar e dar o trabalho por terminado.
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