Comércio Mundial (séc. XIX a 1914)

O crescimento do comércio mundial foi extremamente acelerado no século XIX. Foi um crescimento mais rápido do que nos séculos anteriores ou mesmo posteriores e verificou-se, em especial, nos países mais desenvolvidos da Europa e na América do Norte (Reino Unido, França, Alemanha; Holanda, Bélgica, Suíça, Escandinávia e Estados Unidos da América).
A hegemonia destes países é explicada pelo tipo de trocas comerciais praticadas no século XIX. A Europa absorvia cerca de 80% das exportações de países como a Bélgica, a Holanda e a Argentina, 75 a 80% das exportações da Alemanha, da Rússia e da Austrália, mais de 60% das da França, da Itália e dos EUA e aproximadamente metade das da Índia e do Canadá. Enquanto na Inglaterra o comércio se repartia entre a Europa e as colónias.
Esta distribuição geográfica do comércio mundial resultava do desenvolvimento de novos esquemas que incluíam trocas de matérias-primas minerais e produtos agrícolas por produtos industriais manufaturados e trocas de produtos manufaturados entre os países industrializados. O aumento do comércio de produtos primários foi um resultado da industrialização da Europa, que obrigou à importação de grandes quantidades de materiais minerais e sobretudo de vegetais e de produtos alimentares consumidos por uma população em franco crescimento, mais bem nutrida em quantidade e qualidade, devido ao aumento do rendimento per capita.
As principais matérias-primas agrícolas eram o algodão e a lã. O algodão bruto representava uma grande fatia das exportações norte-americanas. A indústria da lã cresceu, consideravelmente, após 1850, a partir do momento em que se desenvolveu a criação de gado na Áustria, na Nova Zelândia, na Argentina e na África do Sul.
A Europa dependia menos das colónias quanto ao fornecimento de produtos minerais, embora a França até à Primeira Guerra Mundial continuasse a ser um grande importador de carvão da Bélgica, da Grã-Bretanha e da Alemanha. Por exemplo, para a Grã-Bretanha o carvão representava 2% das exportações em 1850 e em 1913 atingia já os 10%. As exportações de carvão estavam associadas ao comércio para o continente e ao fornecimento de carvão para os barcos.
No comércio intra-europeu as trocas de produtos siderúrgicos também eram bastante importantes, mas algumas matérias-primas vinham de países distantes. O fornecimento de metais não-ferrosos, em especial do cobre, da borracha e do petróleo, tornaram-se essenciais neste comércio à escala mundial.
Um dos principais fatores da intensificação das trocas internacionais foi o aumento da dependência da Europa em relação à importação de alimentos. À volta de 1850, este comércio era intra-europeu, mas, paulatinamente, tornou-se intercontinental, graças ao progresso do comércio dos cereais, em especial de trigo, pelo aparecimento do comércio de produtos animais e pela extensão das compras de produtos alimentares tropicais. Nos EUA, na Austrália, na Argentina e no Canadá, a cultura de cereais cresceu, apesar da descida de preços no último quartel do século XIX.
Com o aparecimento das cadeias de transporte frigoríficas, nos anos de 1880, intensificou-se ainda mais o comércio intercontinental de carne e de produtos lácteos. E com o aumento de rendimento per capita os consumidores puderam aceder a outros produtos alimentares mais refinados como o chá, o café, o cacau, o açúcar e o tabaco, disponíveis a preços mais acessíveis.
Pela altura do rebentamento da Primeira Guerra Mundial, as exportações de produtos manufaturados do Noroeste Europeu e da América representavam 84% das exportações a nível mundial desses produtos, uma percentagem inferior aos 89% do período entre 1876-80. Nestas balizas cronológicas o resto do mundo recebia 55% e 65% das exportações mundiais desses produtos, o que indica que o tradicional esquema de trocas - troca de produtos primários por produtos manufaturados, dominada pelo Noroeste e pelos EUA começava, cada vez mais, a interferir com a rede de trocas de produtos industriais entre os países industrializados.
O crescimento das trocas mundiais criava, entre os países mais evoluídos, relações de complementaridade e solidariedade. Assim, o principal comprador dos produtos alemães era a Inglaterra (absorvia 14% das suas exportações) e o melhor cliente da Inglaterra era a Alemanha. A Europa recebia 35% das exportações inglesas e 27% das exportações alemãs. Nesta troca os mercados ultramarinos revestiam-se de uma importância capital para os países europeus, no entanto constituíam somente uma das várias componentes das suas exportações. Por isso, em verdade, não se poderá afirmar que a exportação colonial europeia pós-1800 fosse um resultado imediato do esforço para garantir os mercados.
Nos países menos desenvolvidos as trocas tiveram um papel de arrastamento, isto é, forneceram mercados a setores-guia e submeteram o conjunto da economia às leis da concorrência internacional, dentro de políticas protecionistas moderadas. O comércio mundial durante os três quartos do século XIX até 1914 foi um motor de crescimento pela exportação de produtos primários e de produtos industriais. As economias destes países, povoados pela Europa mais recentemente (Austrália, Nova Zelândia, Canadá e África do Sul), estava dependente das exportações de produtos primários, em virtude da imigração e dos investimentos europeus. Verificou-se um efeito de arrastamento, porque esses países estavam sujeitos a exigências idênticas às dos países europeus, relativamente ao funcionamento interno das suas economias.
Dois exemplos significativos deste efeito de arrastamento são o Japão e os países escandinavos, pois revelaram uma grande capacidade de adaptação ao crescimento da procura mundial e souberam, sabiamente, orientar as suas produções em função das suas necessidades, por exemplo, a Noruega e a Suécia que eram grandes fornecedores de madeira, face à concorrência da Rússia e da Finlândia no final do século XIX, voltaram-se para a exportação de pasta de papel, enquanto a Suécia apostou no setor da metalurgia.
O multilateralismo das trocas não foi uma invenção do século XIX, mas foi altamente aperfeiçoado neste período, num processo em que a Grã-Bretanha desempenhou um papel primordial, embora fosse perdendo alguma exclusividade perto do início da Primeira Guerra Mundial. A Inglaterra funcionava como um entreposto comercial (porto de Londres) e um fornecedor de serviços comerciais e bancários (casas comerciais e bancos londrinos), apesar da percentagem do comércio inglês no cômputo geral do comércio mundial ser baixa. O protagonismo dos EUA no comércio mundial estava então a consolidar-se e com ele o dólar impunha-se como moeda por excelência das trocas mundiais.
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