Conflitos e tensões no Portugal medievo

Os conflitos e tensões no Portugal medievo ocorrem logo na ocasião do seu nascimento, com as questões que opuseram D. Afonso Henriques, apoiado por uma nobreza portucalense jovem, empreendedora e desejosa de uma autonomia efetiva face a Leão e Castela, a sua mãe, a Rainha D. Teresa, ligada aos interesses da Galiza e desinteressada desse processo de autonomia.
Nos primeiros séculos de existência, Portugal conheceu vários momentos problemáticos. Destaquem-se os seguintes.
Quando subiu ao trono em 1223, com apenas 13 anos de idade, D. Sancho II herdava uma situação caótica. O reino encontrava-se em profunda desordem. Interdito pela Igreja, dividido pelas disputas entre a nobreza (parte dela, tal como o defunto rei D. Afonso II, excomungada) e o clero, não se antevia fácil a tarefa do jovem monarca. Nos primeiros tempos do seu reinado foi assinado um acordo entre a Coroa e o Clero procurando desmobilizar os polos de fricção entre o poder temporal e o espiritual, que tinham a ver, sobretudo, com a ingerência da nobreza na administração das igrejas e bens eclesiásticos e, da parte do clero, as constantes tentativas de interferir na administração do Estado. Por um certo lapso de tempo as coisas pareciam estabilizadas. A tal ponto que o monarca pode dedicar-se a atividades militares de grande interesse para o reino, prosseguindo com algum brilhantismo a obra guerreira iniciada por D. Afonso Henriques. Contudo, os problemas regressaram em força no final da década de 30. Arrogantes pelas glórias conquistadas no campo de batalha, os nobres regressam às suas terras dispostos a interferir em tudo o que lhes aprouvesse, nomeadamente nos rendimentos das igrejas. O Clero, por seu turno, não desistira de recuperar uma posição de relevo nos assuntos do Estado. A luta era aberta e permanente. Em 1238, o bispo do Porto, D. Pedro Salvadores queixa-se de que o monarca pretendia retirar à sua igreja a jurisdição da cidade. Não era a primeira vez que os prelados do Porto faziam eco do seu descontentamento (D. Martinho Rodrigues já antes havia feito o mesmo). Na sequência destes protestos, o bispo de Salamanca lançava interdito sobre o reino; de seguida intervinha o Papa, obrigando o monarca ao compromisso. O Rei compromete-se, então, a respeitar os privilégios eclesiásticos. Mas foi por pouco tempo. Em 1243, os bispos faziam eco em Roma da anarquia que grassava em Portugal. Apoiados pelo príncipe D. Afonso, presuntivo herdeiro do trono e acolhido em Bolonha desde 1238, os bispos apresentam um quadro negro da situação portuguesa no Concílio de Leão. Em Paris, depois da proclamação de Inocêncio IV em tomar a seu cargo a reformação de Portugal - delegada na figura de D. Afonso -, decidiu-se a intervenção no reino português. Em 1245, o príncipe desembarcava em Lisboa. Começava abertamente a guerra civil. Uma guerra civil encarniçada, envolvendo os partidários do Rei e as tropas do futuro Bolonhês. D. Sancho requereu o auxílio castelhano, que lhe foi concedido, chegando a Portugal um contingente aliado. Contudo, a vitória viria a pender para as forças do conde de Bolonha. Sancho II exilou-se em Toledo, onde viria a falecer rodeado de alguns partidários fiéis. No fim da sua vida, tornara-se irmão terceiro, isto é, franciscano, em regime conventual. Outra fase aguda de conflitos que redundaram numa guerra civil ocorreu no início do segundo quartel do século XIV, na sequência da ascensão ao trono de D. Afonso IV. Essa guerra esboçara-se ainda em vida de seu pai, D. Dinis, contra quem se revoltou por diversas vezes, devido aos favores que o Rei concedia ao seu filho bastardo Afonso Sanches, que, segundo alguns autores, se destinariam a abrir-lhe caminho para o trono, em detrimento do filho legítimo. Logo que subiu ao trono (1325), D. Afonso IV reuniu cortes em Évora, preparando o documento de acusação contra o seu irmão, condenando-o a desterro perpétuo e perda total dos seus bens, confiscados para a Coroa. Afonso Sanches não se ficou. Reagiu, invadindo Portugal por Bragança e conseguindo levar a melhor sobre as forças régias comandadas por Gonçalo Vaz. O monarca reagiu, empenhou-se pessoalmente na condução das operações e conseguiu uma importante vitória com a tomada do Castelo de Codesseira (1326). Por essa altura, D. Afonso Sanches caía doente em Abedelim. A consciência de que esta guerra colocava em xeque o reino levou à intervenção de vários medianeiros, entre os quais se encontrava a Rainha D. Isabel; alcançou-se, por fim, a paz. Como gesto de reconciliação, foram devolvidos ao infante os bens patrimoniais que lhe tinham sido confiscados.
Entretanto, no último quartel do século XIV, ocorria o maior conflito do Portugal medievo, interpretado, inclusivamente, por alguns investigadores, como o fim desse período em Portugal. Trata-se da crise de 1383-1385 ou interregno ou, para outros, revolução.
Na sequência da morte do Rei D. Fernando, Portugal corria o risco de ver a sua independência ameaçada. O Rei morrera sem deixar herdeiros varões e a sua filha, D. Beatriz, estava casada com o Rei de Castela, D. João I. Em 1383, defrontam-se várias tendências nacionais, que representam outros tantos modos de encarar o futuro do reino. Por um lado, há um grupo poderoso, aristocrata de velha estirpe, ligado aos interesses da Rainha regente, D. Leonor, e que "vê com bons olhos" a aproximação ao vizinho castelhano. Por outro lado, há um grupo heterogéneo, composto por uma nova nobreza de poucos horizontes (em face da presença dominadora e pressionante dos nobres tradicionais), desejosa de encontrar um lugar ao sol, aliada, para a ocasião, a um poderoso grupo mercantil fundado na prosperidade do comércio marítimo de cidades como o Porto e Lisboa, desejoso de ampliar os seus horizontes comerciais e, acima de tudo, de evitar a asfixia com a integração de elementos de Castela, rivais marítimos poderosos e empreendedores como eles. Apoiam a figura de D. João, filho de D. Pedro e de D. Inês de Castro, posteriormente afastado da corrida graças à capacidade de manobra e de intriga revelada pela regente Leonor.
Com estes dados, pode-se esboçar o quadro geral das forças em confronto, os partidos da revolução. Por um lado, o partido legitimista: o da grande nobreza, que apresenta uma solução portuguesa (D. Beatriz) apoiada na legitimidade da sua descendência (filha de D. Fernando e de D. Leonor Teles); por outro, o partido nacionalista-legitimista, apoiado na popularidade do infante D. João e no frágil argumento de que o casamento entre D. Pedro e D. Inês ocorreu efetivamente, sendo, assim, legal, a sua candidatura. Todos sabemos, no entanto, que nenhuma destas fações triunfou. É que existe um terceiro partido (claramente nas cortes de Coimbra de 1385 e apenas pensado após o descrédito político do infante D. João, acusado de assassinar a mulher) denominado nacionalista, que emerge em torno da figura de D. João, mestre de Avis, filho bastardo de D. Pedro I e de Teresa Lourenço. O mestre tinha servido a estratégia dos mentores do golpe de 1383. Fora ele o encarregado de, no palácio real, assassinar o Conde de Andeiro, ato simbólico de contestação e de libertação da influência castelhana sobre a Rainha, ato que desempenhou a custo e, a partir de então, tornado testa de ferro de uma estratégia que assumiu claramente os valores burgueses, convenientemente tornados nacionais para atrair o apoio essencial do braço popular e da baixa nobreza. Olhando para o processo desapaixonadamente, parece óbvio que o mestre de Avis é como que "empurrado" para a frente. Era uma pessoa que não sabia como as coisas poderiam acabar. Só assim se explicam as inúmeras hesitações, o encontro com a Rainha deposta, as incertezas, todo um processo complicado de que Fernão Lopes nos dá conta e que, por fim, resultará num movimento com resultados felizes.
Com o apoio financeiro da burguesia (por exemplo é a cidade do Porto quem paga o soldo dos archeiros ingleses que integram a hoste do mestre), com a visão estratégica de um chefe militar competente como D. Nuno Álvares Pereira e com a determinação das suas tropas, o futuro D. João I consegue vitórias importantes em Atoleiros, Valverde e Aljubarrota, ganhando um capital de popularidade que o tornam a escolha evidente para dirigir os destinos do reino.
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