Contrarreforma

Esta expressão designa a atividade da Igreja e das várias nações católicas no sentido de proceder a uma reformatio in capite et in membris ("reforma na cabeça e nos membros") em toda a Cristandade, tornada urgente no período entre os concílios de Constança (1414-1418) e de Trento (1545-1563). O grande objetivo era a defesa dos dogmas contestados por Lutero, da autoridade papal e da unidade dos católicos, contra a Reforma Protestante iniciada por aquele antigo frade agostinho em 1517, que contestara, em termos globais, a indisciplina, o luxo e a ignorância que imperavam no seio da hierarquia da Igreja, representante da Cristandade.
Historicamente, este período caracteriza-se pela tentativa de aplicação daqueles intentos, principalmente da segunda metade do século XVI (Concílio de Trento) até à primeira metade do seguinte (Paz de Vestefália, 1648). As origens do movimento da Contrarreforma recuam até aos movimentos de reforma eclesiástica do século XV, evidenciados nos desejos de renovação dos concílios de Constança, Basileia (1431-1448) e Latrão V (1512-1517), bem como em decretos tendentes a uma reforma parcial de alguns dos papas daquele tempo, para além de pregações de religiosos (S. Vicente Ferrer, S. Bernardino de Siena, entre outros), do aparecimento de ramos de Observância nas ordens religiosas (monásticas e mendicantes) ou de novos institutos de espírito reformador (como os franciscanos capuchinhos ou os jerónimos) e adaptados ao contexto histórico e religioso da época. Há também uma nova dimensão espiritual na Europa, difundida pelos místicos do Reno, denominada Devotio Moderna (devoção nova), baseada na meditação e na oração individual. Em alguns países, como Espanha, a renovação da Igreja terá começado mais cedo, com as reformas dos Reis Católicos, atingindo o alto clero, modelo para os seus congéneres e para o povo.
Porém, a reforma completa da Igreja Católica não surgiu, antecipando-se-lhe a Reforma Protestante com Lutero, Calvino e a Igreja Anglicana de Inglaterra, instituída por Henrique VIII. Numerosos grupos de cristãos - regiões e nações inteiras - seguem-nos e abraçam os seus ideais, dividindo-se a Cristandade e enfraquecendo o poder papal, corrompido, simoníaco e nepotista. O Concílio de Trento é o maior esforço de reação da Igreja, tendendo a um reforço da mesma e ao lançamento de bases sólidas para a sua reforma, fixando e clarificando os dogmas atacados por Lutero e Calvino. Redifiniu-se a mensagem de salvação (pela fé e pelas obras) e a doutrina sacramental da Igreja (os sete sacramentos), bem como várias doutrinas, regras disciplinares (formação do clero, obrigação de residência dos bispos nas dioceses, celibato, proibição de venda de cargos eclesiásticos e de indulgências) e pastorais: não há rutura ou novidade, antes reforma jurídica. Para além de Trento, existiram outros propulsores da reforma da Igreja Católica. Os papas, por exemplo, continuarão o projeto delineado naquele concílio, cumprindo-os e aplicando-os, agora com autoridade reforçada. Paulo III (1534-1549) convocou-o, depois de ter reorganizado a Inquisição (1542) e criado a Congregação do Índex (censura de livros e ideias perigosas para a Igreja) - instituições que exercerão um papel relevante neste período, organizando uma autêntica caça às bruxas e aos heréticos -, e aprovou o projeto de Sto. Inácio de Loyola para a criação da Companhia de Jesus (1540), congregação de clérigos regulares que será um dos instrumentos mais importantes para a Contrarreforma, conseguindo recatolicizar regiões ganhas pelo Protestantismo. Outros papas continuarão o esforço de Paulo III, instituindo seminários para formação do clero. Paulo IV (1555-1559), fanático, e Pio V (1566-1572) deram impulsos decisivos ao projeto tridentino.
O fervor religioso mantém-se, ganhando uma dimensão cultural maior. Pretende-se uma hierarquia culta e impregnada de espírito evangélico, capaz de lutar contra as heresias. A criação de uma série de novas ordens e congregações religiosas atesta o desejo de reforma latente no clero. Aliás, a reforma católica teve os seus maiores frutos nas ordens religiosas, gravemente abaladas pelo movimento protestante. As antigas ordens reformaram-se profundamente; outras surgem após Trento, imbuídas de objetivos de orientação espiritual do povo, educação do clero, ensino e proteção dos pobres e assistência aos enfermos, para além da pregação e das missões no estrangeiro (colónias).
O clero reanima-se com novas formas de devoção, suscitando grande adesão popular e seguindo exemplos de prelados notáveis, em fervor e santidade, como o célebre arcebispo de Milão, S. Carlos Borromeu (1538-1584), ou o Bispo de Genebra, S. Francisco de Sales (1567-1622). Para além dos bispos, houve ainda outros heróis de santidade. Os santos autênticos tinham de ser homens autênticos, o que os tornava modelos de conduta e de vida, exemplos aos olhos de uma Cristandade em renovação. O século XVI contou inúmeros, muitos deles fundadores de institutos religiosos, como S. Filipe Neri, S. João da Cruz, Sta. Teresa de Ávila, Sto. Inácio de Loyola, S. João de Deus (português) e S. Vicente de Paula.
Também os reis e príncipes são decisivos na Contrarreforma. Inspirados pela Igreja, assumem-se como elementos de reação e de luta contra o Protestantismo, auxiliando o clero a recuperar as antigas regiões católicas (como Maximiliano da Baviera ou Fernando II na Alemanha, com os jesuítas). Filipe II de Espanha é considerado o campeão da fé católica, apoiando guerras religiosas na Europa Central e protegendo o clero nos seus reinos de uma forma empenhada.
A Contrarreforma acaba assim, também, por continuar a fazer prevalecer a latinidade (o latim continua a ser língua oficial do papado) e a doutrina escolástica, conseguindo um novo impulso propagandístico, através da potenciação de aspetos emocionais da religião. Este esforço de propaganda e difusão da fé ganha uma nova dimensão através da arte, visível no desenvolvimento do Barroco, para muitos a "arte da Contrarreforma". Acentuam-se os aspetos ornamentais, as formas dinâmicas e faustosas nas artes, no sentido de despertar a comoção e a espiritualidade do espectador. A imagem passa a ser um instrumento de divulgação dos dogmas, ao contrário do Protestantismo, que proíbe a representação da divindade. Na arquitetura, destaque-se o chamado estilo "jesuítico", expressão pouco correta mas representativa de uma conceção própria da Ordem na construção dos seus edifícios.
Basicamente, a Contrarreforma peca por tardia, revelando-se impotente na reunificação da Cristandade, quer em relação aos protestantes quer em relação à Igreja Ortodoxa, de rito Oriental ou bizantino (mergulhada agora no domínio turco). Esta resposta da Igreja Católica mais não foi do que uma defesa e reação contra o Protestantismo, uma tentativa de o confrontar com uma instituição forte, disciplinada e em fase de purificação espiritual, influenciada pelos humanistas.
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