Convento de S. Domingos (Coimbra)

No século XIII chegam os primeiros dominicanos à cidade de Coimbra por iniciativa das filhas de D. Sancho I, D. Branca e D. Teresa. Arranjado o terreno junto ao rio, o Convento de S. Domingos é fundado em 1227.
Dada a sua localização, este mosteiro era muito danificado pelas cheias do Mondego. Esta situação leva a que D. Manuel I obtenha autorização do Papa Júlio II para que se realize a construção de um novo mosteiro. É só em 1546 que os religiosos mudam para a Rua da Sofia, mas ficando em instalações provisórias, pois as obras do novo mosteiro encontravam-se ainda em curso.
O projeto do novo edifício, devido a uma conjuntura económica desfavorável, ficou só pelas capelas da cabeceira. O responsável pelo inovador traçado foi o engenheiro-militar e arquiteto Isidoro de Almeida. Planeia-se um templo de três naves, sendo a central mais elevada, abobadadas e transepto de grandes dimensões - igualmente abobadado, com cúpula sem tambor -, onde se rasgavam as capelas formando a cabeceira. A capela-mor foi custeada pelo duque de Aveiro, D. João de Lencastre, como prova o brasão na cabeceira. A colateral da Epístola, de invocação a Jesus, foi patrocinada pelo desembargador António Lourenço, e a do Evangelho, da responsabilidade do tesoureiro da Sé, Francisco Monteiro, dedicada a N. Sra. da Assunção.
Depois de vendida em meados do século XIX, a igreja veio a ser transformada em central de camionagem, o que a danificou gravemente, tendo apenas sido preservada a Capela do Tesoureiro. Hoje é visível no local - transformado num centro comercial de gosto muito discutível - a abóbada de berço da colateral direita, desenhando elegantes caixotões, assente em cimalha ressaltada. Toda esta estrutura arquitetónica é finamente decorada, estando agora isolada pelas placas de um café situado no seu vão.
Com a intervenção das autoridades responsáveis pela conservação do património construído, trasladou-se para o Museu Nacional de Machado de Castro a Capela do Tesoureiro, uma obra notável saída do cinzel do escultor francês, mestre da Renascença Coimbrã, João de Ruão. Os trabalhos foram iniciados em 1553, segundo o programa característico da 2.ª fase deste brilhante e operoso escultor. É uma fase mais monumental, mais sóbria e onde se fazem sentir já algumas influências da estética maneirista. As esculturas adquirem mais humanismo e a gramática decorativa adere aos novos motivos de Antuérpia, divulgado pela circulação de gravuras flamengas.
A capela é coberta por abóbada de berço com caixotões, separados por reservas retangulares, onde se inscrevem rótulos e florões nos seus cruzamentos. O interior dos caixotões é quadriculado e ricamente decorado.
O magnífico retábulo pétreo atinge enormes proporções, servindo como dossel a abóbada da capela. O retábulo estrutura-se em três corpos, funcionando o primeiro como predela. Os outros dois são formados por dois pares de colunas coríntias, de fuste em caneluras, com toros no terço inferior e festões pendentes abaixo dos capitéis. Arquitrave ornada de querubins e friso denticulado com ovados e dardos separa este corpo do superior, em tudo semelhante à exceção do arco central abatido e das colunas em balaústre. O retábulo é finalizado por frontão triangular, decorado por friso idêntico ao da arquitrave.
O corpo inferior é ornado com cartelas e apresenta os bustos dos Evangelistas, em médio-relevo, nos pedestais que sustentam as colunas do corpo central. Este, axialmente, ostenta a cena da Assunção da Virgem, onde N. Sra. é representada na metade superior ladeada por coros de anjos e, inferiormente, por Apóstolos (cujas cabeças foram mutiladas) rodeando o túmulo vazio. Os intercolúnios mostram nichos sobrepostos, mostrando os superiores as imagens de S. João Batista e Santiago. No corpo superior, sob o arco abatido, desenvolve-se a cena da Coroação da Virgem e nos intercolúnios, nichos com as esculturas de S. Pedro e S. Paulo.
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