Convento de S. Francisco (Beja)

O Convento de S. Francisco de Beja começou a materializar-se em 1268, nos finais do reinado de D. Afonso III. Apesar de ter recebido várias doações régias e outros benefícios, as suas obras prolongaram-se para além do ano de 1348. A ordem e casa religiosa passaram por diversas e ruinosas vicissitudes, que lhe modificaram substancialmente a sua primitiva volumetria do gótico ogival.
No tempo de D. Manuel I concretizaram-se remodelações, restando desta intervenção parte do claustro do cenóbio e alguma simbólica real na fachada externa do templo.
As grandes transformações estruturais e decorativas aconteceram nos finais do século XVII e primeira metade do século seguinte, introduzindo uma planimetria barroca à anterior construção gótica. Com a extinção das ordens religiosas pelo decreto liberal de 1834, S. Francisco de Beja foi profanado e arruinado, sendo as suas instalações afetadas ao exército português, ocupado pelo Regimento de Infantaria de Beja e por algumas repartições administrativo-militares.
De grande volumetria e pesada configuração barroca, o templo franciscano foi realizado em várias campanhas (1694 - 1703 e 1726), que decorreram entre os reinados de D. Pedro II e D. João V. No entanto, tal como aconteceu em outras dependências conventuais, a sua adaptação a quartel militar destruiu extensas estruturas arquitetónicas.
A fachada principal tem um alpendre, parcialmente entaipado, utilizando-se apenas o arco central de volta perfeita. No interior veem-se alguns arcos ogivais e o portal de linhas retas. Por cima deste, ocupando a extensão do coro alto, rasgam-se três janelas de linhas retas. Subrepunham-se a estas aberturas um nicho, presentemente entaipado, que resguardava uma escultura de S. Francisco. No remate da fachada foi substituído um antigo painel de azulejos pelo emblema do regimento de infantaria. Recuada, ao nível da capela-mor, está a torre sineira de perfil quadrangular, coberta por cúpula semi-cilíndrica e ladeada por pináculos.
Da geometria de volumes externos da igreja conventual sobressai a sacristia retangular e sólida com cobertura semicilíndrica. No entanto, o seu interior foi totalmente profanado, situação que ocorreu igualmente em outras dependências conventuais.
Interiormente, a igreja desenvolve-se numa nave comprida, coberta por abóbada de berço, mutilada e adaptada a fins militares. Desta amputação sobreviveram os grossos pilares que marcam os seis tramos do corpo, concebidos em dupla pilastra com capitéis compósitos e decoração vegetalista nas mísulas adossadas. As grades de separação do coro e os silhares de azulejos setecentistas desapareceram. Uma série de retábulos em talha dourada dispunham-se nas diversas capelas laterais, também eles desaparecidos ou transferidos para outras casas religiosas.
O claustro foi reconstruído durante o reinado de D. Manuel I, modificando decisivamente o anterior claustro ogival. Por sua vez, este claustro quinhentista sofreu remodelações e acrescentos no século XVIII. Assim, o claustro franciscano é uma quadra irregular de dois andares, o térreo formado por arcadas de volta perfeita com colunas capitelizadas e com as suas galerias cobertas por abóbadas de aresta nervuradas. As galerias ocidental e norte deixam ver nos fechos de abóbada símbolos da heráldica manuelina e outros alusivos à Paixão de Cristo. Superiormente, as galerias claustrais são ritmadas por uma série de arcos abatidos, espaço composto na reforma setecentista, bem como os reforçados botaréus em cantaria das paredes claustrais e, superiormente, os arcobotantes da igreja setecentista. Contíguo ao claustro está o refeitório, de planta retangular, dividido em cinco tramos e coberto por uma abóbada ogival polinervurada, com os bocetes desta ornamentados com símbolos religiosos e decoração vegetalista. Infelizmente, o refeitório encontra-se em mau estado de conservação, tendo-lhe sido retirados importantes elementos decorativos e funcionais.
No espaço do claustro, a galeria oriental conserva ainda a sala medieva do capítulo e a extraordinária Capela dos Túmulos ou dos Freires, obra do gótico ogival e classificada como Monumento Nacional.
Este panteão da família dos Freires, edificado na primeira metade do século XV, foi instituído pelo capitão e monteiro-mor do reino, João Freire de Andrade, filho de Gomes Freire e neto do Mestre de Avis D. Nuno Freire. No entanto, a capela funerária foi muito mutilada e profanada, já que os sarcófagos foram retirados para o claustro, os escudos destacados e os leões onde repousava um dos sarcófagos levados para o Museu Regional de Beja. Entre outras utilizações, o espaço da Capela dos Freires serviu de armazém de palha ou ainda de biblioteca.
Apesar de tudo, a sua estrutura ogival quatrocentista subsistiu na sua quase totalidade. A entrada desenha um arco lanceolado repousando num conjunto de colunelos capitelizados. O corpo inicial da capela foi alterado, aquando da construção do segundo piso do claustro. A cabeceira é rasgada por uma sumptuosa arcaria gótica com colunas capitelizadas e o seu desenho poligonal é coberto por uma graciosa abóbada de ogivas, derivando em feixes artesoados e de arestas vivas, repousando em poderosas colunas com capitéis de cariz vegetalista. Os bocetes são ornamentados por heráldica gótica, referente às famílias Sousa de Arronches e à família Pereira e Freire de Andrade.
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