Corpo Sitiado (1955-1963)

Obra publicada em 1976 que reúne as composições que o autor, Casimiro de Brito, selecionou ou depurou das coletâneas Solidão Imperfeita, Telegramas, Canto Adolescente; o livro inédito Corpo Sitiado e um "Posfácio" do autor. No posfácio, explica que entre renegar essa primeira fase da sua atividade poética ou alterá-la, optou pela segunda hipótese, definindo poiesis como "a ação de fazer alguma coisa nova com as palavras, de trabalhar, fingir, agir...", integrando esta experiência na "conceção unitária" do seu projeto poético, "onde cabe a memória dos primeiros textos", e que "passa pela diversidade, pela mutação a vários níveis da temática e do estilo: a equação do ser e das origens, a palavra circunstancial, o inconsciente coletivo, o confronto com o contexto histórico, e com o pré-texto linguístico, a solidão, a inserção nas lutas do tempo, a interrogação da morte".
Se é difícil reconhecer no ímpeto apaixonado e arrebatado dos primeiros títulos o poeta depurado dos anos 60 e 70, é contudo visível ao longo desta coletânea uma evolução no sentido dessa contenção emocional e formal. Enquanto em Solidão Imperfeita, a poesia é definida como "canto", no que resume de "lirismo torrencial, impetuoso, afirmativo e generoso" (MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa dos Anos 50, 1996, p. 287), subordinado a um imperativo ético e social ("Canto a imagem oblíqua / de um cordão de homens / em sua fecundíssima comunhão", de "Simulação do Homem Moderno"; "Canto-me e celebro-me a mim mesmo / em cidades de névoa perdido, incendiado / por não sei que visão momentânea / de outras pedras vivas, árvores, cicatrizes / de horizontes fechados como o meu - mãos, raízes / amantes do amor e da paz", de "O Meu Canto"), que tem como coordenada principal quebrar a "solidão inúmera / do povo / de Portugal" - necessidade de comunicação reiterada na "Carta a Pablo Picasso", onde se descreve a si e à pátria como "corpo sitiado país deitado"; a partir de Telegramas, é já visível "um caminho de despojamento, de redução ao essencial, que implica, ao mesmo tempo, a extrema valorização da palavra e da imagem" (cf. MARTINHO, Fernando J. B., idem, 1996, p. 287). Prepara-se, a pouco e pouco, na evolução do jovem colaborador de Cadernos do Meio-Dia, o terreno para a expressão de uma nova sensibilidade ao signo linguístico e para a definição de uma "Arte Poética" (Canto Adolescente) centrada sobre a "palavra" ("Silêncio: a palavra sangra / seu cântico de pó") e definida em "Do Poema": "O problema não é / meter o mundo no poema [...] Nem / tão-pouco / enriquecê-lo, ornamentá-lo / com palavras delicadas [...] // o problema é torná-lo habitável, indispensável / a quem seja mais pobre, a quem esteja/ mais só / do que as palavras / acompanhadas / no poema" (Canto Adolescente). Os dois últimos títulos da coletânea são, no entanto, um exemplo da possibilidade de conciliar a busca da palavra e da imagem precisas com o compromisso histórico, contendo num verso mais sincrético a revolta de viver num país sitiado.
Como referenciar: Corpo Sitiado (1955-1963) in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-06-01 00:01:02]. Disponível na Internet: