criança imaginária
Entende-se por criança imaginária aquela que os pais idealizam e fantasiam antes do seu nascimento.
Freud revelou em diversos trabalhos a importância do lugar do recém-nascido no mito familiar, assim como as repercussões do imaginário dos pais no futuro do bebé, e os desejos e lutos aos quais a criança deve responder.
A história de um bebé não começa com ele; precede-o e determina fortemente a sua vida futura. Ou seja, a relação mãe-filho começa muito antes do nascimento da criança. De facto, o lugar que a criança ocupa no inconsciente dos pais é mais ou menos estabelecido muito antes de o casal se conhecer. A clínica mostra que em todos os seres humanos existem imagos e fantasmas relativos ao ser pai e mãe, os quais serão evocados quando se tornarem mãe ou pai. Estas imagos, presentes no inconsciente parental antes da conceção da criança, constituem as bases fantasmáticas oferecidas ao recém-nascido aquando de seu nascimento, bases essas que terão um importante papel na construção da psicossexualidade.
Os pais evidenciam expectativas, angústias, fantasmas sobre o bebé, e a gravidez na mulher pode reavivar memórias de experiências da sua própria infância.
Ao tomar conhecimento da gravidez, começa na maioria das mulheres, com ou sem a participação do companheiro, toda uma mobilização fantasmática através da qual se estabelece uma relação imaginária com a criança. Há uma reorganização do universo fantasmático dos pais para "acomodar" a realidade externa, mas sobretudo a realidade psíquica, à criança que deverá nascer.
Na altura do nascimento, a criança real é confrontada com a imaginada e esta acaba por ser relegada para segundo plano. Isto porque ao aceitar que a criança não seja do sexo desejado ou de que ela possa vir a ter projetos diferentes daqueles que os seus pais anteciparam, equivale a fazer o luto da "criança imaginada".
Quanto à criança, deverá ser capaz, na medida em que se constitui como sujeito, de não responder ao lugar da "criança imaginada" - prestando-se cada vez menos a ser o objeto privilegiado dos investimentos narcísicos dos pais, o que equivale a não ser depositário dos desejos dos pais. Ou seja, para nos constituirmos como sujeitos desejantes, para existirmos psiquicamente, temos que "matar" a representação narcísica do desejo da mãe e "matar" a criança que anteriormente fomos nos sonhos dos pais.
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