Crises do Império Soviético

No fim da Segunda Guerra Mundial a ocupação efetiva das tropas soviéticas, que se encontram entre os grandes vencedores, estendia-se a todo o Leste da Europa e à região dos Balcãs, detendo ainda o controlo político de países seus aliados, como a Polónia, a Hungria e a Bulgária.
A defesa de políticas de carácter popular e da reforma agrária, acompanhada por campanhas de propaganda e repressão concertadas, permitiu à União Soviética dominar diversos povos extremamente debilitados pelos anos da guerra e que se encontravam, nesta fase, profundamente esperançados em relação ao futuro.
Criou-se assim um bloco, territorialmente alargado, cujo regime político já tinha resistido à guerra civil, à morte de Lenine, ao pacto Germano-Soviético, à ocupação nazi, à Segunda Grande Guerra, e que sobreviveu ainda às perseguições estalinistas, à fome, ao terror, aos campos de concentração e às tentativas de autodeterminação dos povos nas suas zonas de influência. O Bloco Soviético abrangia uma enorme extensão territorial - da qual estava no entanto excluída a Jugoslávia, que tinha cortado relações com Moscovo em 1948 - fechado ao resto da Europa e ao Ocidente, encontrando-se a Velha Europa e o Mundo divididos pela denominada "cortina de ferro".
À semelhança do Pacto do Atlântico Norte no Ocidente, a União Soviética celebrou, em 1955, o Pacto de Varsóvia, uma aliança militar com os seus estados satélites, pacto este que englobava determinadas posturas de carácter económico, que acabaram por beneficiar bastante a URSS e prejudicar gravemente os restantes países aderentes.
Estes estados satélites dispunham de regimes democráticos populares, que mais não eram que ditaduras de partido único, fechadas ao Ocidente, e sob a vigilância atenta do exército soviético que, de imediato e com extrema eficácia, reprimia toda e qualquer tentativa de liberalização ou autodeterminação. Foi o que se passou na Hungria em 1956, na Checoslováquia em 1968 - durante a chamada "primavera de Praga" - e na Polónia em 1981.
A União Soviética constituiu ainda uma larga rede de alianças na sua oposição ao capitalismo ocidental. No âmbito destas alianças, a URSS apoiou a Revolução Socialista Cubana em 1959, e a Revolução Islâmica no Irão, mantendo também relações de aliança com países de regime comunista no Oriente: caso da Coreia do Norte, Vietname, Camboja, Laos e China que, pela mão de Mao Tsé-Tung, se tornara comunista em 1949. A União Soviética mantinha ainda o seu plano de expansão do comunismo, principalmente nos países seus vizinhos, o que se comprova pela invasão do Afeganistão em 1979, bem como pelo alargamento das influências em África.
A URSS empenhou-se numa política de reforço militar, dedicando um terço do seu orçamento ao armamento, equiparando-se ao poderio bélico dos Estados Unidos, logo em 1949, com o fabrico da sua primeira bomba atómica, aproximando-se, nesta fase, do auge as tensões da Guerra Fria. O programa espacial é outra área em que a URSS se lançou em forte e direta competição com os Estados Unidos da América, processo que culminou em 1957 com o lançamento do Sputnik que leva a bordo Yuri Gagarine.
Por outro lado, nos restantes setores da economia e nas condições reais de vida, o Império Soviético foi entrando num profundo atraso e decadência. Apesar da produção industrial se poder equiparar a outros países da Europa, os bens de consumo continuavam a ser racionados, e a agricultura era deficitária apesar da variedade de recursos. Toda a engrenagem económica e comercial se encontrava profundamente limitada por um enorme centralismo. A informação não circulava e a informatização, que no mundo ocidental dava já importantes passos, era ainda incipiente.
Após a morte de Estaline, em 1953, e a subida ao poder de Nikita Krushchev, houve um desanuviamento interno, bem como um acalmar das relações com o Ocidente, no âmbito daquilo que era, nas palavras de Krushchev, uma "coexistência pacífica". Esta fase marcou uma importante viragem após a opressão e o terror que marcaram a liderança de Estaline.
Foi o próprio Krushchev que, em 1956, apresentou um relatório no XX Congresso do Partido Comunista, expondo os excessos do sistema policial, atitude que levou à libertação de muitos presos políticos e à reabilitação de diversas pessoas perseguidas anteriormente. Foi neste contexto, e após a chamada "Crise dos mísseis" de 1962, que se deu a visita do presidente Nixon a Moscovo em 1972, por ocasião de uma exposição que se realizava nessa cidade, e que colocava os moscovitas em contacto com o mundo ocidental. Foi também nesta ocasião que se falou pela primeira vez em "congelação" dos arsenais estratégicos.
Esta nova política de "coexistência pacífica" com o Ocidente foi uma prova difícil para a União Soviética, que tentou controlar a introdução de algumas novidades ocidentais com a sua adaptação ao mundo comunista, mantendo a imagem de decadência que sempre se difunde em relação ao capitalismo, e uma propaganda de sucesso - só boas notícias - em relação à "Mãe Rússia".
Apesar destas mudanças permaneceu na União Soviética uma política dirigista, de obediência às posturas do Partido, bem como se manteve a perseguição e o silenciar das oposições. A era Bresnev foi sobretudo marcada pela estagnação e pelo início do declínio.
Quando em 1985 M. Gorbachev assumiu a liderança (sucedendo a Brezhnev), a URSS contava já com 20 anos de estagnação económica, pobreza social e repressão cultural. Os anos seguintes foram marcados por uma forte tentativa de mudança, de melhoramento das relações com o Ocidente, de reformas políticas e económicas e introdução de algumas liberdades pessoais, num projeto amplo de abertura, que se veio a denominar de Perestroika - reestruturação social e política - ou Glasnost - abertura. Gorbachev apresentava um discurso franco e de algum modo crítico das realidades da União Soviética: "Os nossos foguetes podem encontrar o cometa Halley e chegar a Vénus, mas os nossos frigoríficos não trabalham", afirmou.
Esta "lufada de ar fresco" revelava-se numa dinâmica incontrolável, tanto no interior da União Soviética como nos seus países-satélites. Uma vez iniciado este processo as consequências foram enormes. No vasto conjunto da países sob a influência da União Soviética as agitações sucediam-se. Os estados da região dos Balcãs foram abalados por lutas pela autodeterminação e vários outros países - como o Casaquistão, a Arménia, e o Usbequistão - envolveram-se em profundos conflitos inter-étnicos.
Estas mudanças não foram pacíficas, tendo havido uma clara oposição das fações conservadoras do regime soviético, tanto no seu território como da parte dos seus aliados. Deu-se, em 1991, uma tentativa de golpe de Estado com o objetivo de impedir as reformas e fazer a URSS voltar ao status quo dos anos 70. Esta operação fracassou, sendo os jovens soldados os primeiros a desobedecer aos seus comandantes e recusando-se a atacar as pessoas que se manifestavam nas ruas. Apesar do insucesso o golpe arrastou Gorbachev na derrocada, surgindo um novo herói que materializou as pretensões da população. Boris Ieltsin assumiu em 1991, não a liderança da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas mas da Federação Russa, e, pela primeira vez em 70 anos, a bandeira russa foi desfraldada no Kremlin. Iniciou-se assim o longo e complexo processo de transição democrática, ainda em curso.
Por toda a União Soviética as pessoas destruíram os símbolos do comunismo. O atraso social, económico e cultural da URSS tornou-se visível aos olhos do mundo, mas, mais importante, tornou-se visível aos seus próprios olhos, em profundo contraste com as condições de vida dos países ocidentais. Aspirava-se à construção de uma sociedade moderna, exigindo para isso a liberdade necessária, e iniciaram-se os processos de autodeterminação de diversos povos que faziam parte da União Soviética. Alguns destes processos decorreram pacificamente, outros despoletaram graves conflitos perante a recusa por parte de Rússia de reconhecer a autonomia a determinados territórios. Foi o que se passou em 1994 com a Guerra da Tchetchénia.
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