Cruz

A organização do Universo em forma de cruz, ou de quatro sentidos ou referências dominadas pelo quadrado, substituiu, nas sociedades patriarcais progressivamente urbanas, as formas redondas antigas mais próximas dos valores matriarcais. A cruz assumiu a simbologia dos quatro pontos cardeais, dos quatro elementos, das quatro estações ou dos quatro cantos da Terra. A cruz marcava a interseção de duas linhas, um ponto, um local ou o centro do Mundo. Associadas às árvores, e especialmente à Árvore da Vida, representavam o sacrifício de deuses masculinos antes de terem sido utilizadas como o símbolo de Cristo.
As representações gráficas da cruz são muitas e variadas, assim como a sua simbologia. A Crux Dissimulata, semelhante à cruz gamada ou suástica, mas com os braços no sentido contrário aos dos ponteiros do relógio, dizia-se ter sido criada para disfarçar o seu simbolismo religioso cristão dos perseguidores fiéis de Cristo. Mas tal não poderia ter sido verdade, dado que os primeiros cristãos simbolizavam Cristo com o cordeiro do sacrifício e só no século VII a cruz foi admitida e generalizada como símbolo dos cristãos. Passagens da Bíblia diziam que Jesus tinha sido pendurado numa árvore e não numa cruz.
A cruz que no Ocidente era conhecida por Celta, e que também foi usada pelos cristãos, era já utilizada na antiga Índia como um símbolo de união sexual, a kiakra, e ainda hoje é usada com esse sentido pelas comunidades ciganas. A cruz copta tinha na sua forma original o símbolo do Sol, a roda, à qual foram associados os quatro pilares que sustinham o céu nos quatro cantos do Mundo e, mais tarde, os quatro pregos de Cristo que espalharam o seu sangue pelo mundo. Na Idade Média, o facto de as representações de Cristo passarem a ter só três pregos, suscitou na tradição cigana a crença de que o quarto prego teria sido roubado aos carrascos de Cristo por um cigano e que, como agradecimento, Cristo teria autorizado os ciganos a roubar aos que não pertencessem à sua etnia. A cruz das cruzetas termina cada um dos seus braços com uma nova cruz e foi usada por cristãos e não-cristãos como um amuleto de boa sorte. A cruz estrela é uma variante da cruz grega de braços iguais, era representativa dos oito pontos cardeais nas bússolas e era usada como um símbolo sagrado. A cruz de forquilha, com as suas pontas fendidas, foi muito usada na heráldica medieval e associa a simbologia da cruz com a magia pagã da forquilha.
Inicialmente dedicada a Hecate, a deusa grega das encruzilhadas, símbolo do infinito e da união dos elementos feminino e masculino, a cruz grega precedeu a cruz latina como símbolo cristão e hoje é utilizada como símbolo mundial da Cruz Vermelha. A cruz latina, inicialmente rejeitada pelos padres cristãos por ser um símbolo pagão usado por gregos e egípcios, só começou a ser usada pelos cristãos a partir do século VII, constituindo a sua representação formal a partir do século XIX.
A cruz entrelaçada simboliza a união entre o mundo terreno e o mundo espiritual que se encontram interligados e interdependentes. A cruz gamada, semelhante à cruz suástica, deve o seu nome ao facto de a representação gráfica da cruz utilizar quatro vezes a letra grega gama. Amplamente utilizada pelos cristãos em túmulos e catacumbas, a cruz gamada foi um dos símbolos sagrados mais importantes e difundidos em toda a Antiguidade, fazendo parte de grande parte das moedas. Acompanhava as representações da Deusa (considerada a primeira mãe) na Grécia e Médio Oriente.
A cruz de Jerusalém, composta por quatro cruzes mais pequenas dentro de uma grande cruz, era a antiga cruz do centro da Terra que a tradição judaico-cristã ligou a Jerusalém por considerar ser esta cidade o centro religioso do Mundo. A cruz de Malta era representada nos antigos templos da Deusa antes de fazer parte da iconografia cristã, enquanto que uma sua variante, a cruz templária, também denominada de cruz da Ordem de Cristo, foi o símbolo das descobertas portuguesas figurando nos panos das velas das primeiras caravelas lusas.

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