Cultura Castreja Pré-romana

Os aspetos particulares da Zona Noroeste da Península Ibérica, onde se destacam as acentuadas variações de relevo, impeliram à formação, desde a Idade do Bronze, de povoados que obedeciam a critérios de defesa e visibilidade, refletindo um período histórico de apenas alguns séculos, durante o qual as mudanças económicas e sociais originaram a edificação de um grande número de povoados fortificados em zonas de relativa altitude. Estes espaços, denominados castros (base para o conceito de cultura castreja), vão caracterizar toda esta zona geográfica, frequentemente referida e descrita pelas fontes clássicas, gregas e latinas e sobretudo por Estrabão.
Estão presentemente inventariadas no Norte de Portugal cerca de um milhar de estações arqueológicas deste tipo, algumas de dimensão menos significativa, classificadas como castros (igualmente com derivações da palavra-base, como crasto, castelo, cristelo), mas também por outras, de maior envergadura e extensão (normalmente circunscritas aos 10 hectares), denominadas por citânia ou cividade (civitas), focos de significativa densidade populacional, em notória relação espacial com áreas de recursos naturais, com um maior aproveitamento das vias fluviais e de proximidade marítima, ocupando manchas de características agropecuárias e de exploração dos solos. Topograficamente, ocupavam colinas de altitude média, em redor dos 200 e 500 metros, onde muitas vezes as condições de defesa natural eram insuficientes, obrigando à edificação de complexos sistemas defensivos, evidentes sobretudo nos grandes povoados, como muralhas de pedra, fossos e outros, que circundam, em função da topografia, a mancha de habitação. Este modelo urbano seria proto-urbanizado somente com a chegada dos Romanos, com a construção de eixos ortogonais que englobavam núcleos familiares, recintos e edificações públicas, templos e balneários, formando exemplos visivelmente representados em estações arqueológicas de significativa importância como Briteiros (Guimarães) e Sanfins (Paços de Ferreira).
Do ponto de vista da organização espacial, o estudo de determinados núcleos familiares revelou a existência de unidades domésticas apresentando uma variedade arquitetónica significativa, predominando as formas circulares, em alguns casos ovaladas e angulares, distribuídas em função de um pátio, estando documentada a existência de estruturas de cozinha com lareiras e fornos, áreas de armazenamento de víveres e dormida, de tipo simples ou misto, bem como zonas de reunião, com bancos em redor dos muros e, inclusive, espaços funerários. Os materiais exumados em contextos arqueológicos no Norte do país, provenientes em alguns casos de escavações realizadas no início do século (mas sobretudo da investigação iniciada cientificamente na década de 80 do século XX), viriam a revelar conjuntos cerâmicos vários, bem como um trabalho metálico assinalável, demonstrando uma forte originalidade nos modelos, aberta contudo às influências do exterior, evidenciando um relacionamento óbvio com outros povos, representados no mundo tartéssico, celta, púnico, grego e itálico. A cerâmica dos castros é um reflexo evidente do modo de vida e tradição dessas populações, refletindo a sua atividade doméstica e artesanal, apresentando modelos de morfologia e decoração diversa, com traços técnicos característicos, simbolizados nos grandes dolia (talhas de maior dimensão para armazenamento), vasos de cozinha, incluindo panelas, potes e vasos de suspensão de asas interiores, bem como pequenas taças para bebida e outros exemplares, na sua maioria fabricados em cerâmica de pasta pobre, apresentando superfície externa alisada e por vezes, com decorações retilíneas e curvilíneas. Na fase inicial de fabrico, a cerâmica era de tipo manual e de decoração incisa, apresentando-se posteriormente com estampagem, predominando os motivos bastante característicos de círculos concêntricos, em duplo s (SS) e escudetes. Posteriormente, a introdução da roda de oleiro permite a estandardização e regularidade das formas cerâmicas, com uma evidente redução das preocupações ornamentais.
O mundo da produção metálica, fortemente associado às fases principais de riqueza mineira da região (essencialmente estanho e ouro), ao nível tecnológico alcançado e aos contactos com o exterior, encontra-se bem documentado no vasto espólio de armas, utensílios diversos, objetos litúrgicos e de adorno, em bronze, ferro e metais preciosos, onde se destacam, para além dos "clássicos" exemplos de machados, foicinhas, lanças e punhais, torques, braceletes e pendentes (todos da Idade do Bronze). Destacam-se também outros elementos, de influência continental, como fíbulas, torques e viriae (joias de base celta), e ainda adornos femininos diversos (de origem mediterrânica), ou peças de armamento defensivo e de ataque, amiúde representadas na iconografia numismática e na estatuária.
De uma forma geral, o espólio conhecido revela uma tradição e um horizonte do Bronze atlântico final, na sua fase original e de formação, em conjunto com as primeiras influências meridionais, sobretudo em conexão com o mundo tartéssico (séculos VIII-VI a. C), prosseguidas com as migrações túrdulas, documentadas sobretudo na margem sul do rio Douro, bem como com o comércio púnico, mais significativo na zona litoral (séculos V-III a. C.). Salientam-se, de igual modo, os movimentos paralelos de origem centro-europeia, de base hallstáttica e post-hallstáttica, de diversos itinerários (este-oeste e sul-norte), em relação direta com a vertente celtizante da região, e perfeitamente documentada nas formas linguísticas da onomástica das divindades, povos e lugares. Num último momento, estabelecido pelos primeiros contactos entre povos locais e Roma, assistimos a uma progressiva assimilação do "mundo romano", integrando estas sociedades locais no vasto espaço civilizacional das províncias do império.
A constituição social das comunidades castrejas chegou até nós proveniente, sobretudo, das fontes clássicas, arqueológicas e epigráficas. A sua constituição baseia-se nos laços de sangue e na estrutura celular familiar extensa (a domus), agrupada em unidades suprafamiliares, onde o castro (castellum) representa o elemento habitacional e social, integrando um todo mais amplo formado por unidades étnicas maiores (as civitas); ocupa territórios demarcados, gerando espaços muitas vezes suscetíveis de tensão e hostilidade, em que a figura de um chefe guerreiro (representado com frequência na estatuária castreja), surge como elemento de profundo prestígio, ou, provavelmente, como versões locais de estátuas de magistrados, já sob domínio romano. A análise da sociedade deste período revela uma proximidade assinalável entre as unidades sociais e as entidades do foro divino, evidente na sacralização dos espaços, na geografia, na vertente étnica, social e familiar, onde uma estrutura social fortemente hierárquica e guerreira é unificada por uma componente religiosa de cariz abertamente naturalista.
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