Cultura e Pensamento: Das Invasões Francesas ao 31 de janeiro

O período entre as Invasões Francesas (iniciadas em 1807), que coincidem com a entrada de ideias liberais em Portugal, e o golpe falhado de implantação da República de 31 de janeiro de 1891, é caracterizado pelo domínio das correntes românticas na cultura portuguesa, que assim rompem com a influência classicizante no pensamento nacional. Em termos europeus, este período foi marcado pelo advento do progresso económico, político e social da burguesia, tendo como desfecho as consequências político-sociais da Revolução Industrial a partir de 1850.
A literatura desenvolveu os estilos históricos e individualistas, mais ligados ao espírito de procura e ao culto da personalidade. Inspirados nas tradições folclóricas e ancestrais, que caracterizam o ideal romântico, foram colocados de parte o bucolismo, a apologia do belo, da ordem e do racionalismo, para se apelar ao horrível, ao fantástico, ao psíquico, ao sonho e ao irreal. Esta busca do passado permitiu o desenvolvimento da procura da literatura e das técnicas ligadas à sua produção, o que impulsionou a criação de bibliotecas e de gabinetes de leitura. Desta forma popularizaram-se os géneros literários à margem do classicismo, como a literatura de cordel e o romance. Dirigido para um público menos preparado, o novo género literário libertou-se gradualmente do espartilho clássico, cheio de preconceitos e convenções, procurando aflorar os temas mais ligados à vivência de cada um. Privilegiou-se então um realismo descritivo, que apela para as emoções e sensações familiares de cada leitor.
Fez escola o romance histórico, cujo principal inspirador em Portugal foi Alexandre Herculano (1810-1877). Além das inúmeras traduções, esta corrente deu origem a obras como as de Luís Augusto Rebelo da Silva (1822-1871), autor de Mocidade de D. João V, ou do portuense Arnaldo Gama (1828-1869), autor de Um Motim há Cem Anos. Será também notável o sucesso de outros géneros literários, já durante a segunda metade do século. A novela ou romance de atualidade, sob a pena de homens como Júlio Dinis (1838-1871), ganhou bastantes adeptos, pois estava mais próxima do tempo do leitor. Eram as mais das vezes publicados em folhetins, que serviram também de suporte a um outro género muito apreciado, o da literatura de viagens, povoada de evocações pitorescas e realistas. Esta nova fase do romantismo português foi marcada pela personalidade de Camilo Castelo Branco (1825-1890). A poesia romântica portuguesa revelou um gosto pelos assuntos medievais, como os de cavalaria, adotando uma rima mais audível tirada do rimance hispânico, como fizeram Almeida Garrett (1799-1854) e Alexandre Herculano. Um nome menos conhecido é o de José Freire de Serpa Pimentel, ligado ao Teatro de Coimbra, que se lançou neste género literário fazendo escola. O grande vulto foi, no entanto, António Feliciano de Castilho (1800-1875), que se ligou a diversas publicações vocacionadas para a divulgação da poesia, como o Trovador ou a Revista Universal Lisbonense, em torno das quais giram os principais poetas da primeira metade do século, e que formou o gosto poético da burguesia portuguesa. Já na segunda metade da centúria, formou-se o grupo do Novo Trovador, liderado por Soares de Passos (1826-1860), que se embrenhou numa poética mais negra, pessimista, cemiterial, expressa em poesias como o Noivado do Sepulcro, de Soares de Passos. No Porto, surgiu A Grinalda, em torno da qual se juntaram os novos escritores nortenhos, em muito precursores da "Questão Coimbrã".
O teatro romântico português beneficiou da presença de uma companhia de atores franceses no nosso País entre 1835 e 1837, que introduziu os dramas históricos de Vítor Hugo e Alexandre Dumas (pai). Quando Garrett tomou a seu cargo a inspeção-geral dos teatros, durante o governo Setembrista, procurou impulsionar a dramaturgia, ação que culminou com a construção do Teatro Nacional (1846). Contudo, em termos literários, o teatro português não se conseguiu libertar das influências francesas, caindo no género melodramático, conhecido por "dramalhão", ou então em obras piegas, chamadas de "drama íntimo".
A segunda metade do século, marcada pela Regeneração fontista, trouxe uma nova dinâmica à cultura portuguesa, mais ligada aos movimentos europeus, como se reflete na chamada "Geração de 70". Este grupo era composto por homens que se batiam por questões de índole social, revelando descontentamento face à estagnação política regeneradora, problemas bem diferentes daqueles que a primeira geração romântica teve que combater. Formados na cultura europeia, Eça de Queirós(1845-1900), Antero de Quental (1842-1891) e Teófilo Braga (1843-1924), entre outros, procuraram fazer eco das conceções da evolução europeia, apelidadas de germanismo, expressa em acontecimentos como a derrota da Comuna de Paris e a unificação da Itália por Garibaldi, e nas obras de autores como Comte, Proudhon ou Hegel.
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