Dádiva

"Voz magoada e depurada no seu canto" (cf. Ferreira, Serafim - "Luís Amaro ou a Poesia como Dádiva", in A Página da Educação, n.° 92, junho de 2000), a poesia de Dádiva filia-se numa corrente poética que, passando por Alberto de Serpa, Cristóvam Pavia, Raul de Carvalho ou Mário Beirão, encara, segundo Serafim Ferreira, "numa visão lírica e intimista da vida e do mundo", a poesia como "expressão maior do homem e como forma de absoluto entendimento das nossas mais fundas emoções e vivências" (id. ib.). O desencanto do sujeito poético face a toda a ação passada ou presente ("E penso em mim: Do passado/ Resuma humilhação./ Quanto sonho frustrado,/ Mãe! Quanta deceção...// Penso em mim: Do presente/ frieza, solitude.../ Tédio por esta gente/ Fútil e hostil e rude."(Aceitação)); a conceção da vida como um "caminhar / Pelo mundo, à toa,/ Sem amor nem esperança/ (E o tédio a crescer,/ E a noite mais densa,/ Gélida silente...)"; as imagens noturnas; a expressão da solidão; o reiterar de sonhos destroçados, de um sentido da vida perdida e desmoronada; o sentimento de carregar do peso do mundo ("O caminho é longo/ E a noite escura./ Tanto que andar/ Na terra dura!"), conferem, com efeito, à poesia de Dádiva um tom angustiado e ferido, mesmo se essa dor não renuncia à aspiração por uma "vida mais bela/ A verdadeira!", encontrando na expressão da intimidade a sua maior pureza: "De mim assisto, atento, / À luta pelo mundo,/ E a mim próprio revejo/ Na ânsia de encontrar/ Um fio por onde desça/ À minha intimidade./ Entre os outros me esqueço/ A indagar: quem sou?".
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