dêixis

De origem grega, dêixis é um substantivo deverbal que significa mostrar. A raiz dik-/deik- está na origem da palavra dicere (dizer) em latim. Parece ter sido primeiramente utilizado com um significado metalinguístico por Crisipo Estoico (séc. III a. C.), embora seja o nome do gramático grego Apolónio Díscolo (séc. II d. C.) que ficou associado a esta palavra. O filólogo alemão K. Brugmann (1906) redescobriu este conceito esquecido durante séculos e recuperou-o para o seu estudo sobre os demonstrativos do indo-europeu.
A partir do século XIX, a dêixis conheceu abordagens variadas, quer de âmbito filosófico, quer de âmbito semiótico, amplamente associada às questões da referência da linguagem. Em Portugal, os estudos sobre a dêixis filiaram-se sempre no estruturalismo francês.

Entende-se por dêixis a relação formal de enunciação de uma mensagem por um sujeito, num espaço e num tempo determinado. É o dispositivo linguístico responsável pela inscrição do sujeito na sua produção discursiva. Com o desenvolvimento da Teoria da Enunciação, no quadro da análise do discurso, o sujeito vai reaparecer inscrito no próprio sistema formal da língua como nó axial de ancoragem das coordenadas deíticas espacio-temporais. A dêixis é, portanto, considerada expressão de 'subjetividade', uma vez que constrói toda a referência em função do ponto de vista do sujeito – locutor do enunciado. A origem deste eixo de coordenadas EU-AQUI-AGORA, foi designada por E. Benveniste como o 'ponto zero' do 'aparelho formal da enunciação' de que o locutor se apropria ao produzir o seu enunciado. O sujeito é a 'instância da enunciação' central que, ao proferir a palavra 'EU', implanta um 'TU' diante de si, ao mesmo tempo que EU e TU se inscrevem imediatamente num determinado tempo e espaço, criando uma enunciação nunca igual e sempre irrepetível.
Várias foram as propostas para a constituição de uma tipologia para a dêixis. Neste ponto, K. Bühler foi absolutamente decisivo e fundador, lançando orientações que se tornaram clássicas e que ainda se mantêm válidas. K. Bühler considerou três campos mostrativos a que correspondiam três modos de mostração verbal:

• a 'deixis ad oculos' (a referenciação deítica depende do contexto situacional);
• a 'anáfora' ou "deixis anafórica" (a função mostrativa dos deíticos realiza-se como anáfora ou catáfora, consoante remetam para uma informação que surja antes ou depois no cotexto ou espaço textual);
• e a 'deixis am phantasma' (mostração que ocorre num espaço evocado mentalmente pelo locutor, supondo que o alocutário partilha do mesmo conhecimento suposto pelo locutor).

A 'deixis ad oculos' é sem dúvida o tipo de mostração mais estudado, donde se destacam nomes como E. Coseriu, J. Lyons, E. Benveniste, C. Kerbrat-Orecchioni e D. Maingueneau, entre outros. Regra geral, nesta categoria integram-se a dêixis pessoal, espacial e temporal, embora não se verifique tanta unanimidade no que respeita aos indicadores deíticos que atualizam essa informação.

O fenómeno da dêixis - pessoal, temporal e espacial - expressa-se através de signos que remetem para um sentido de indicação, ostenção, elucidação ou indigitação. Por isso, o termo deítico (ou shifter, ou embrayeur) aparece, geralmente, a significar demonstrativo (do grego deiktikós, que significa demonstrar).
A dêixis pessoal assinala os papéis dos participantes no ato comunicativo. A categoria gramatical de pessoa permite a codificação do referente. A deixis pessoal é assinalada através dos pronomes pessoais e possessivos e da flexão verbal: Eu falo. (1.ª pessoa); Tu dizes (2.ª pessoa); Estudamos. (1.ª pessoa).
A dêixis temporal aponta para o momento da enunciação. Em função deste ponto de referência percebe-se o tempo linguístico. Os deíticos temporais estão presentes através dos tempos verbais (Estudei. - anterioridade em relação ao momento da enunciação; tempo passado; Irei - posteridade em relação ao momento da enunciação) e de locuções adverbiais temporais (Neste momento; agora; ontem…).A dêixis espacial indica o espaço da enunciação, especificando a localização a partir de um ponto de referência. A dêixis espacial recorre a advérbios e locuções adverbiais de lugar (Aqui; aí; ali; além; cá…) e aos demonstrativos (na frase "Traz esse livro", o determinante demonstrativo esse indica a presença e a localização próxima do interlocutor).

Embora a nível da dêixis se atenda, em geral, aos aspetos diretamente ligados ao uso de marcas de pessoa, tempo e espaço, há autores que consideram, também, a existência da dêixis discursiva e da dêixis social.
A dêixis discursiva está relacionada com o uso de determinadas expressões num enunciado para referir uma parte anterior ou posterior do discurso, como o demonstrativo isso na frase "quando me disseste isso, eu já sabia" ou essa em "essa ideia é brilhante!".
A dêixis social diz respeito à utilização de expressões (formas de tratamento…) que estabelecem distinções sociais de acordo com os papéis desempenhados por cada um dos participantes no ato comunicativo. (Exemplos: Senhor Professor, preciso que me esclareça uma dúvida. Caro amigo, não te esqueças do que te pedi.)

J. Lyons, E. Benveniste e C. Kerbrat-Orecchioni também se dedicaram à dêixis textual, discursiva ou anafórica. A anáfora veio, mais tarde, a ser integrada nas teorias da coesão textual.
K. Hamburger (1957) foi a primeira autora que encarou com seriedade a dêixis 'am Phantasma' e que a utilizou na análise da enunciação fictiva e da narrativa. Este trabalho viria a inspirar F. I. Fonseca, que aplicou o que designou por 'dêixis fictiva' à narrativa de Vergílio Ferreira.
A dêixis viria a integrar outras dimensões, como a dêixis 'nocional' proposta por B. Pottier (1955) e retomada por Óscar Lopes (1985); a dêixis 'social', com C. Fillmore (1975), atualizada pelos sistemas de formas de tratamento, sendo aplicada ao francês por D. Maingueneau (1991), que se refere à «dimension sociolinguistique de la personne». G. Rauh (1983) nos seus estudos sobre dêixis, refere-se ainda a uma dimensão 'emotiva' que teria sido já mencionada por G. Lakoff (1974), presente no uso emocional do demonstrativo 'that'. K. Green (1995) propõe ainda uma dimensão 'sintática' da dêixis, ligada aos tipos de frases e à intenção pragmática final que lhes está associada.
Como referenciar: dêixis in Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2020. [consult. 2020-06-01 14:07:52]. Disponível na Internet: