Desastre de Tânger

Tânger, cidade marroquina perto do estreito de Gibraltar, foi outrora ocupada sucessivamente por Fenícios, Cartaginenses e Romanos, depois pelos bizantinos e, mais tarde, pelos muçulmanos, no século VIII. Em 1471 Tânger foi tomada pelos portugueses.
A entrada de Tânger na história dos Descobrimentos e da expansão portuguesa não foi a mais feliz, pois começou com uma expedição fracassada em 1437. Segundo a versão do cronista Rui de Pina, esta expedição nasceu de um desejo do infante D. Fernando, apoiado pelo infante D. Henrique.
Para David Lopes, especialista em História da presença portuguesa em Marrocos, a Coroa portuguesa tinha necessidade de se afirmar nesta zona do Magrebe, também disputada pelos castelhanos, depois da conquista de Ceuta, em 1415. De início, esta empresa contava com a oposição do rei D. Duarte e do infante D. Pedro; no entanto nas Cortes de Évora, em abril de 1436, foi decidido apoiar esta iniciativa. E, assim, a 22 de agosto de 1437, a armada de Tânger partiu do Tejo, chegando a Ceuta, no dia 27 do mesmo mês. Segundo Rui de Pina, esta armada teria apenas seis mil homens, um número insuficiente de efetivos para lutarem por esta praça-forte do Magrebe.
Nos primeiros dias foi feito o reconhecimento do terreno. A 9 de setembro, o infante D. Fernando encontrava-se em Ceuta para se dirigir a Tânger, enquanto o exército do infante D. Henrique seguia viagem por terra. Esta situação representava a desorganização e falta de estratégia desde logo reveladas pelos militares portugueses nos preparativos da expedição. Ao contrário do que sucedera 22 anos antes, aquando da conquista de Ceuta, não havia grandes condições para o sucesso: todos sabiam para onde se dirigia a armada (inclusivamente os muçulmanos), os navios não foram suficientes para embarcar todos os efetivos e, além disso, não houve dinheiro para contratar os mercenários necessários para o reforço da missão.
O infante "Navegador" encontrava-se em frente da cidade desde o dia 13 de setembro, mas o ataque só viria a acontecer no dia 20. Sala-ben-Sala, um velho conhecido dos portugueses, dirigia as forças magrebinas: comandava Ceuta quando D. João I tomou a cidade em 1415. Quando se iniciaram as hostilidades, o desfecho foi rápido. D. Henrique, mal "pôs pé na praia", foi imediatamente cercado, sem grandes condições de se defender, no célebre "palanque". E a situação agravou-se com a chegada de tropas para o lado árabe.
Perante a presença das forças do poderoso rei de Fez, os portugueses foram obrigados a render-se no dia 9 de outubro. No dia 20 desse mês embarcaram para Portugal, deixando o infante D. Fernando como refém.
A libertação do refém deveria ser feita mediante a entrega de Ceuta aos muçulmanos, o que não veio a acontecer, uma vez que o seu irmão D. Henrique recusou de imediato a entrega dessa cidade e, assim, o príncipe cativo viria a morrer em Fez em 1443.
A morte do infante, tornado santo pelo povo, foi encarada como um desastre, embora a posição estratégica de Tânger se tenha tornado um alvo preferencial dos descobrimentos portugueses.
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