Dezoito de Janeiro 1934

Em setembro de 1933, eram lançados decretos governamentais relativos a assuntos laborais que foram entendidos pelos dirigentes operários portugueses como uma clara "fascização sindical", ou seja, uma tentativa de supressão dos sindicatos tradicionais e a sua substituição por sindicatos nacionais corporativos, afetos ao regime salazarista. Criam então um Comité de Unidade de Frente Única Antifascista, a partir da convergência de centrais sindicais comunistas e anarco-sindicalistas (CGT, Confederação Geral dos Trabalhadores), que receberam o apoio dos sindicatos socialistas e de outras formações independentes. A princípio o Comité (também conhecido como Comité Confederal da CGT) defendia uma ação concertada dos trabalhadores por via de assembleias laborais e greves parciais, mas a tendência comunista impunha cada vez mais a sua orientação e ação: greve geral insurrecional, com recurso à violência se necessário.
Por isso, em finais de 1933, estava em preparação uma ação golpista, de "reviralho", tendo-se iniciado, havia já semanas, o fabrico de bombas e elaboração de planos de sabotagem, bem como o municiamento dos operários. Atualmente pensa-se que existia uma tentativa dos sindicatos em criar um movimento revolucionário de maiores dimensões, com apoio militar. No entanto, este acabou por não surgir, não se sabendo até que ponto houve contactos nesse sentido. De adiamento em adiamento, por entre prisões de dirigentes operários, a frente sindical acabou por definir a data de 18 de janeiro de 1934.
Assim, na noite de 17 para 18, uma bomba rebenta em Lisboa, mais concretamente em Xabregas, e um posto da Guarda Fiscal é alvo de uma tentativa de assalto por comunistas. Logo, o Governo ocupou militarmente a cidade e pôs de prevenção outras unidades militares por todo o País. A planeada greve geral começava mal em Lisboa, onde não se cortaram comunicações, estando condenada ao fracasso, um pouco à imagem do País, também em parte devido à rápida ação do Governo. A greve nunca foi geral, atingindo apenas alguns focos isolados de operários, como Almada, o Barreiro ou Silves. Por outro lado, poucos foram os locais onde houve atos de sabotagem ou de alteração de comunicações e transportes, ou mesmo explosões provocadas (Lisboa, Coimbra...). No entanto, essas ações isoladas e de pouco impacto, foram aproveitadas pelas autoridades políticas no sentido de as considerarem como atos selváticos e de terrorismo, criando uma onda popular de apoio a formas repressivas, que se viriam a verificar.
No entanto, o palco mais conhecido e onde os levantamentos do "Dezoito de janeiro de 1934" tiveram mais visibilidade pública foi a Marinha Grande. Aqui, nesta localidade industrial, grupos de operários das fábricas de vidro, maioritariamente comunistas, conseguiram dominar a povoação e tentaram criar um "soviete" revolucionário, ações que não produziriam efeitos nem tiveram durabilidade devido à rápida intervenção das forças policiais de Leiria. Este fracasso animou violentas discussões entre as células anarquistas e comunistas portuguesas, que se acusavam mutuamente da responsabilidade do sucedido na Marinha Grande e no "18 de janeiro de 1934". O anarquismo foi perdendo força a nível político e de mobilização. Por outro lado, o sindicalismo livre desaparece também em Portugal, assim como são retirados da cena laboral muitos dos seus mentores e ativistas, devido à sua oposição ao corporativismo. No mundo operário, o anarco-sindicalismo perde expressão igualmente, com dirigentes e militantes a serem presos, deportados ou exilados. Quanto ao PCP, cujo secretário-geral era Bento Gonçalves, a derrota foi pesada e as consequências nefastas e perduráveis, embora não tendo sofrido um revés irreversível como o dos anarquistas. Por isso, conseguiu refazer-se em termos organizativos e recompor-se em termos políticos e de militância ativa.
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